Ser fã te prepara pra vida

Fanart de Harry Potter, da autora.

Se eu te disser que gostar de alguma coisa ao ponto de se considerar fã te ajuda a desenvolver algumas habilidades que serão úteis para a sua vida, você acredita? Então vem comigo que eu vou explicar melhor o que eu quero dizer. Essas habilidades a que me refiro são conhecidas no meio acadêmico como competências cognitivas, e vão muito além das habilidades relacionadas a lógica e ao pensamento matemático.

Quando pensamos em cognição, podemos cometer o deslize de imaginar que isso se refere apenas ao que conseguimos fazer com a nossa mente, ignorando que essa mente existe dentro de um corpo e esse corpo está envolto num ambiente. A cognição pode ser entendida mais amplamente como a arte de conhecer. Existem muitas vertentes que estudam como o ser humano chega ao conhecimento, mas falar sobre elas só tiraria o foco sobre o que eu realmente quero tratar aqui. A vertente de pensamento que sigo considera que aprendemos não só pelo raciocínio lógico, mas também pela exploração do nosso ambiente, uso dos nossos sentidos e interações com nossos amigos.

Ok, mas o que isso tem a ver com ser fã?

Já parou pra pensar no que você aprende quando discute porque aquela cena de Supergirl funciona tão bem? Ou porque as fusões em Steven Universe pode ser uma metáfora para os vários tipos de relacionamentos que encontramos na vida real? Ou quando você pega um papel e desenha seu personagem favorito; ou escreve uma fanfic sobre como o Harry teria sido um personagem mais interessante se fosse uma garota? Cada um desses exemplos que eu listei te ensinam alguma coisa.

Quando discutimos sobre nossas paixões com outros apaixonados, estamos aprendendo a socializar com outras pessoas, a analisar estruturas narrativas, encontrar clichés e estereótipos e fazer relações com outras informações que já tenhamos guardado na nossa cabeça. Desenhar pode exercitar noções de espaço, conhecimento de cor, proporção e perspectiva; escrever fanfic melhora o seu texto como um todo. E publicar essas criações em algum lugar que as pessoas possam ver e comentar ajuda a lidar com o outro e a se preparar para receber críticas e a lidar com aquelas pessoas que simplesmente só querem arrumar confusão.

Essas habilidades podem ser entendidas em cinco categorias, que devem ficar mais claras quando eu explicar. Logicidade é a categoria para as habilidades que tem a ver com a lógica (óbvio), com a tomada de decisões e análise de informações; criatividade é a que diz respeito ao que nós criamos, seja um desenho, uma fanfic, um vídeo, um mod para um jogo ou até mesmo uma pergunta que ninguém tinha pensado em perguntar antes; intertextualidade é a habilidade de ver as relações e referências que jogos, séries, filmes e livros fazem entre si, seja essa referência de conteúdo ou de forma; sensorialidade são as habilidades que mexem com os nossos sentidos e o melhor exemplo que eu tenho pra dar é a diferença entre jogar um FPS no computador e jogar o mesmo jogo num console, nossos sentidos precisam aprender a lidar com essas diferenças; e sociabilidade que é a categoria para as habilidades sociais – discutir o assunto com amigos, buscar colaboradores para um projeto, tudo isso é habilidade social.

Não deixe ninguém te dizer que os seus gostos são inúteis. Fazer parte de um fandom pode te colocar em situações que vão exigir de você as mais diversas habilidades, muitas delas serão úteis em outros contextos. Quem quer trabalhar com desenho ou ilustração, pode começar pelas fanarts; pra quem sonha em ser escritor, fanfics são um bom lugar pra experimentar as primeiras histórias e treinar sua escrita. O lado social do fandom vai te preparar para lidar com críticas e com a opinião das outras pessoas. Fazer um mod para um jogo que você ama te ajuda a desenvolver habilidades de programação que podem ser aplicadas em campos como Ciência da Computação. Fora o fato de que muitos fandoms ainda te incentivam a aprender um idioma novo para conseguir consumir a produção dos fãs e participar da discussão.

Então da próxima vez que falarem que você está entusiasmado demais com algo, fique feliz por aprender tanto enquanto se diverte.

About Mayara Barros 2 Articles
Mayara Barros nasceu em 1992, no Rio de Janeiro. Formada em Jornalismo pela Uerj, é mestranda em Comunicação. Publicou um livro de contos pela Editora Illuminare; atua como editora-chefe na Revista Avessa desde 2014 e mantém um blog pessoal, Naive Heart, desde 2011. Sua relação com fandom é amor puro. Começou cedo, escrevendo fics de Inuyasha e Harry Potter com as amigas e agora lê quando pode e faz fanarts quando tem tempo.

1 Comment

  1. Amei o texto e concordo plenamente… me esforcei pra aprender um inglês superior ao que minha escola ensinava por ser fã de artistas e filmes/livros que utilizavam essa língua, mas o conhecimento não parou por aí. Noções de como lidar com pessoas difíceis, perceber que muitos distorcem suas palavras (ou as de seus ídolos) para benefício próprio, aprender a hora certa de se posicionar e até mesmo >como< se posicionar em casos complicados… tudo isso aprendi mais sendo fã do que na faculdade de Relações Públicas, que supostamente foca em tudo isso. É a experiência de vivenciar algo que realmente te faz compreender a teoria e, nesse sentido, ser fã me ajudou incrivelmente.

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