Charlie e os Marretas.

Charlie e os Marretas: Ao jeito millennial

Todo músico nos faz um convite; cabe a nós, ouvintes, aceitarmos a proposta ou não. Por sorte, nossa vida não é que nem a de Maria Madalena que, quando viu anjo Gabriel descer dos céus a seu encontro, teve que aceitar a anunciação de seu destino de carregar em seu ventre o Filho de Deus. Nós, especialmente na era da internet, temos o completo poder de refutar, criticar e, claro, problematizar absolutamente qualquer coisa que nos é oferecida para consumo. Se houve um momento em que músicos eram deuses caminhando sob a Terra, fico feliz em afirmar que não existe mais Olimpo e que, no fim do dia, somos nós, os reles mortais, que escolhemos quem merece esse poder todo. Hoje, nós mortais temos uma arma poderosa em nossas mãos; mais do que em qualquer outro momento da história, temos o poder de dar voz ou destruir qualquer pessoa.

É uma estranha e perigosa via essa que ídolos e fãs embarcam. Apesar disso, há sempre aqueles que fazem convites – e, hoje, falarei especificamente de um convite que nos foi feito em 2014 e que, nesse ano, teve sua proposta estendida.

O primeiro álbum de Charlie e os Marretas, de título homônimo, nasceu como um grande grito de liberdade pelo funk/soul setentista. Já era hora de um ritmo tão bom sair da quietude dos fins de festas em que as pessoas já estão bêbadas o suficiente para gritar que não querem dinheiro, só querem amar e se tornar o menu principal dos shows. A onda blasé da juventude alternativa paulista de ficar parada tomando sua cervejinha no canto da festa e não requebrar o corpitcho já estava pra lá de careta – e, percebendo isso, os Marretas nos chamaram para dançar.

Com o som dos Marretas, era só essa a opção: dançar muito. Se você é desengonçado ou não, pouco importa. Aliás, se o caso fosse de extrema insegurança, a banda mesmo providenciou coreografia facílima de aprender para ninguém ficar de fora ao som do Marretón!

Mas um convite bem dado não estica apenas as mãos e o primeiro álbum não deixou a desejar. Charlie e os Marretas não era apenas sobre o ritmo puro e simplesmente que a banda tanto gostava, mas também sobre história. O funk/soul dos anos 70, assim como o funk atual, nasceu como uma expressão das comunidades negras, pobres e periféricas. O ritmo veio de negros e, em seu primeiro álbum, os Marretas não apenas reconhecem a história do funk como a contam para quem quiser escutar. Em “Baile da Pesada”, ouvimos o início, apogeu e queda do funk setentista com todas as referências às pessoas que construíram o movimento musical. “O Vô Te Ensina” não é apenas um trocadilho fonológico, mas sim o reconhecimento de que são esses artistas das gerações passadas que conhecem e podem ensinar o ritmo aos outros. É uma questão simples que os Marretas já nos disseram logo de entrada: quem sabe de onde veio não pega o caminho errado. E, de fato, os Marretas deixaram bem claro que conheciam a história e sabiam sua posição nela.

Não à toa o primeiro álbum é tão maravilhoso. Mas restava a dúvida do que seguiria adiante. Entre amigas, tínhamos uma aposta: o segundo álbum deixaria o funk/soul tradicional e passearia mais pela música psicodélica ou continuaria na vibe de que quem sentiu o groove já prepara o passo?

Com o lançamento do single “O Trem”, achamos que seria a segunda opção, preparamos nosso passo, mas Morro do Chapéu, o segundo álbum da banda, lançado no segundo semestre de 2016, não era exatamente para o que tínhamos nos preparado.

Admito: não gostei do álbum a primeira vez que ouvi. Os Marretas trouxeram muitas novas referências que não funk/soul de uma maneira um pouco esquisita, os sintetizadores atrapalhavam o entendimento das letras em algumas músicas, nenhuma faixa me fazia levantar do sofá e dançar como no primeiro álbum.

Parecia uma grande mistura: funk de periferia com funk setentista, pop com psicodelia, alguma recuperação do tal tempero latino – algo que talvez quisesse ser coisas demais e acabou flutuante na noite escura. Ao mesmo tempo, havia uma luz estranha sideral que chamava a atenção.

Por um momento, achei que eles tinham se perdido no meio do caminho do primeiro para o segundo disco. Eles não pareciam demonstrar a consciência do primeiro álbum, eles não pareciam saber o que estavam fazendo. Parecia haver uma confusão bem complexa entre antropofagia cultural – que é praticamente o berço da identidade cultural brasileira – e apropriação cultural – uma das maiores discussões no meio musical atualmente. Mas uma banda que se mostrara tão atenta a questões históricas no primeiro álbum não poderia simplesmente deixar isso de lado. Afinal, eles sabiam de onde vinham, não haveria como pegarem o caminho errado.

Morro do Chapéu abre com uma música que, apesar de ter um ritmo muito diferente da proposta do primeiro álbum, dá continuação ao convite que nos foi dado em 2014. A história é simples: após possivelmente alguns Yellow Sunshines, anjo Gabriel – podendo ser facilmente confundido com Jesus aos não conhecedores da Bíblia – anuncia algo que, assim como Maria Madalena, a banda não pôde recusar. O recado é simples, claro e forte como uma marretada: o importante nessa vida é ter o corpo presente. Assim, cabia aos Marretas espalhar a mensagem por todo o Brasil.

Apesar do início bíblico, ainda parecia faltar algo que explicasse a diferença a princípio gritante dos dois álbuns. Foram dias e mais dias ouvindo repetidamente o astral do Morro do Chapéu até chegar à conclusão nenhuma. Quanto mais eu ouvia o álbum, mais coisas o som me lembrava. Existe nele uma vibe de Rio de Janeiro nos anos 90. Algo entre Fernanda Abreu e sua ode ao verão da lata e um Carlinhos Brown precisando produzir algo novo. Uma amiga me disse que o álbum lembrava as músicas da Gaby Amarantos.

Ouvindo com calma e mais atenção, os mistérios foram se desvendando. O convite lá do primeiro álbum para curtir o som é finalmente justificado com a importância da relação entre corpo e mente, as letras continuam com seus trocadilhos fonéticos e fonológicos, parecia uma estranha ressignificação dos tempos entre o Tim Maia do primeiro álbum e a Gaby Amarantos que minha amiga ouvira. Havia um amadurecimento em tudo aquilo. Talvez não fosse o amadurecimento esperado após o single “O Trem” (o qual, mais tarde, descobri que foi feito na leva das músicas do primeiro álbum), mas quem na vida passa por um processo de amadurecimento completamente linear? Talvez fosse isso, e isso seria válido porque é humano, porque é real, porque faz parte de sermos quem somos se confundir um pouco no meio do furacão que é a vida.

Mesmo assim, algumas questões continuavam. Por exemplo, qual Morro do Chapéu era o Morro do Chapéu? Eles estavam mesmo citando Bowie em Astroswag ou isso só era eu ouvindo mal a música? Por que a insistência em tantos extraterrestres? De onde vinha toda aquela onda de Rio de Janeiro na época em que meus pais eram jovens e pintavam no Parque Lage?

A única forma de responder às questões era de fato perguntar para a banda. Afinal, eles não são deuses. E do que adianta fãs terem o poder de dar ou tirar a voz dos outros sem um diálogo anterior? Com grande poder vem grande responsabilidade, já nos disse tio Ben. Foi seguindo tal conselho que fui, carregando outras duas amigas, ao camarim de um show do Grand Bazaar conversar com Charlie e duas marretas (André Vac e Filipe Nader), que tocariam naquela noite na outra banda do selo Risco.

Todo músico nos faz um convite; cabe a nós, ouvintes, aceitarmos a proposta ou não. Acontece que músicos são, antes de tudo ouvintes e também fãs. Essa foi a primeira coisa que o marreta Vac nos lembrou.

Charlie e os Marretas era uma recuperação de um som da época em que músicos eram deuses, “com uma coisa um pouco mais de venerar e homenagear grandes ídolos do funk/ soul”. “Nessa época”, disse Vac, “a gente queria muito seguir o caminho das pedras ali feito por eles, ao nosso modo brasileiro de ser – e paulistano”. Mas com a distância do tempo, a banda percebeu que seu leque de gostos era muito maior do que isso e, talvez, se deixar influenciar por novas referências não fosse má ideia. “A gente queria ser uma banda mais geral do que uma banda de funk/soul”, continua Vac, explicando também que ser mais geral não significa negar o funk. “A gente não queria mudar de estilo, a gente só queria ampliar o leque.”

Se o primeiro álbum é sobre dançar funk/soul especificamente, o segundo é sobre dançar livremente e, de alguma maneira, as músicas precisavam representar isso. A mistura de referências – do funk carioca ao forró nordestino, tendo direito a passar pelo pop mais pop e pelo soul mais soul – é importante para que isso aconteça. A ideia de colagem que já existia no primeiro álbum, de repente, pareceu mais importante no Morro do Chapéu. Mesmo durante o processo de gravação, conta a banda, isso já se mostrou essencial.

Apenas com a data de gravação marcada e quase nenhuma música pronta e ensaiada, os Marretas descobriram na prática o que seria seu segundo álbum. Pouco a pouco, os ritmos foram surgindo e se fundindo e, de acordo com Vac, “a gente foi aceitando que eles iam ter que conviver juntos no disco”.

Se você escuta Charlie e os Marretas e logo em seguida Morro do Chapéu, você percebe uma fluidez que com a distância dos álbuns e da memória não é tão perceptível. As últimas músicas do primeiro álbum emendam muito bem com as músicas do segundo. Isso, é claro, ignorando o single “O Trem”, lançado nesse tempo entre álbuns. Curiosamente, Charlie conta que foram exatamente essas músicas menos “puristas” do primeiro álbum que foram criadas na hora, no estúdio, da mesma forma que o segundo disco inteiro foi feito. Tudo o que é funk/ soul clássico teve mais ensaio, enquanto tudo que é mistura é mais natural aos Marretas – quase como se fosse recado de anjo se agarrar na mistura de referências.

Um processo escrito assim talvez pareça desleixado aos olhos de fora, mas no fundo todo processo criativo se constitui um pouco dessa mesma maneira. É preciso deixar fluir, ver o que acontece com sua própria criatividade para depois pensar em um conceito. Até Paul Valéry, um dos maiores poetas que a França já teve, fez isso com seus livros e cadernos. A primeira coisa a fazer é curtir a música, deixa-la livre sem qualquer pretensão. Só mais tarde, com os resultados no colo, que é hora de sentar e se perguntar o que raios fazer com isso. E, acreditem, de acordo com os Marretas, esse trabalho foi dificílimo no segundo disco.

O que começou a colar as peças, disse Charlie, foi exatamente o Morro do Chapéu. Mas a pergunta é: qual deles?

A música fala sobre o Ceará, para onde Charlie havia viajado um pouco antes da gravação do álbum. Mas uma pesquisa rápida no espaço sideral da internet e pelo menos mais três opções aparecem: Rio de Janeiro, Bahia e Paraná. No do Rio de Janeiro, temos o funk proibido durante 20 anos. No Ceará e na Bahia, temos diversas histórias sobre naves espaciais e visitas extraterrestres. No Paraná, temos fãs da banda que perguntaram aos Marretas se era sobre lá.

A resposta acaba sendo um pouco de todos os Morros do Chapéu, afinal, é um álbum sobre funk, sobre ver aparelhos no céu e, claro, sobre aqueles que escutam a música e se deixam levar por ela. O que começou apenas como uma história de uma viagem de Charlie, de repente, se tornou muito mais que isso e, os Marretas contam, a banda ainda está descobrindo exatamente tudo que isso significa. “A gente tá navegando”, afirma Vac, “É difícil [pra gente] olhar de fora o que tá rolando, é muito mais fácil pra quem tá de fora olhar pra coisa toda e fazer sentido daquilo”.

Enquanto ainda acompanham a reação que o novo álbum está gerando, uma certeza absoluta que os Marretas têm é que de maneira alguma sua música é uma ironia ou uma zoeira. “Tudo que a gente faz é porque a gente gosta”, Vac fala ao discutirmos algumas das críticas que eles ouviram. E fica fácil perceber o quão real e honesta é a vontade da banda de criar o som que tocam e apreciar todas as mais diversas referências que costuram. Mesmo só ao vê-los em shows ou esbarrando com eles no meio dos rolês da cena alternativa paulista, não é difícil de perceber o gosto e admiração genuínos por tudo aquilo que escutam.

Quando minha amiga disse a eles que ela percebia um toque de Gaby Amarantos, a primeira reação foi Charlie dizendo “pô, eu adoro a Gaby”. Quando eu falei que ouvia um tom de Fernanda Abreu e meu pai comentou que considerava mais Carlinhos Brown, todos comentaram “daora!”ou “massa!”. Não importa o gênero musical ou a quanto tempo um músico faz seu som, os Marretas deixam claro que sabem que, no final das contas, todo mundo que cria sua própria música e convida os outros a entrar nessa espécie de jornada é mestre e aprendiz, mesmo quando nós (ou eles próprios) os considerem apenas de um dos dois jeitos.

A ideia é um pouco levar os outros a sério enquanto a banda em si não se leva tão a sério assim. Deixar fluir a criatividade e o humor, se deixar fazer, mas sempre pensando pelo menos um pouquinho sobre o que está fazendo. Algo que, definitivamente, é parte do segredo de criar sua própria forma de expressão.

Talvez o que muitos não entendam é que essa junção de referências feita com humor não é uma forma de diminuir tudo o que é colocado na mistura, mas sim de tentar se ampliar ao máximo enquanto se tenta construir uma identidade própria. Ao serem perguntados sobre a questão de apropriação cultural, todos se mostraram conscientes da questão, dizendo que sim, entendem o lugar deles na história de todos esses ritmos que tanto gostam. Assim, entendemos que a busca pela identidade do som próprio da banda é uma tentativa mais antropofágica do que meramente apropriativa, em um processo consciente – na medida que o fazer criativo permite – da confabulação de uma expressão sincera.

Filipe Nader disse que uma das maiores referências de Morro do Chapéu, no fim das contas, era a cultura dos mashups e do que chamou de “ultra sem foco absurdo picotado” da internet. E, talvez, essa seja a chave final para se ouvir a nova fase dos Marretas. Com o novo álbum, eles tiram os olhos do passado e seus mestres, mirando no futuro que se abre para nós hoje em dia. Isso, porém, não significa esquecer as raízes de suas referências, mas sim as juntar à realidade de nossa geração de um abuso sensorial construído por um humor neodadaísta.

Do que adianta ter tantas referências se elas não se movimentam? Do que adianta a consciência do passado se vai deixa-lo parado? Em um mundo em que mashups de Ivete Sangalo com Oasis existem e são bons, que temos a Foca da Meia-noite ou mesmo um vídeo de Evanescence cantando numa micareta no carnaval da Bahia, qualquer tentativa de recuperação de passado será frustrada se não feito à maneira millennial de se criar: com muitos recortes, referências, sentimentos e um humor que deve ser levado muitíssimo a sério.

Ouvindo com calma, prestando atenção, todas essas questões estão inseridas em Morro do Chapéu. Se é chegada a era de uma Nova União, ela será feita sem deixar as referências, os tempos e nossos corpos parados.

A própria escolha de fazer um álbum-objeto faz parte dessa noção de um tempo em que o CD não faz mais sentido. Afinal, quem hoje em dia efetivamente compra um CD? A opção para o segundo álbum foi sempre focar nas plataformas de streamings e criar algo que pudesse extrapolar a ideia de apenas um CD, já que ninguém mais se importa muito com isso.

Da visão lisérgica de um anjo Gabriel até a realização de que vai TQC um coração pela metade, os Marretas se mostram em sua nova fase completamente presentes em seu tempo, em nosso tempo. A busca ainda um tanto periclitante por uma identidade mais ampla apenas confirma mais a realidade dos millennials de se construírem entre a crise de terem ouvido que tudo já foi feito e a vontade de mudar o mundo, que sabem que não está bem.

Afinal, a música, as culturas, os tempos são sempre passageiros. Nós os tecemos e criamos, está tudo em eterna construção, numa montagem complexa em que referências antigas e inovações são intrínsecas umas às outras. E dentro do próprio álbum, já temos a resposta: Morro do Chapéu é um dos caminhos. Cabe a nós aceitarmos esse convite.

 

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