Cats, o musical, e a história de Grizabella

Em 2010 fui ao meu primeiro musical. Ainda me lembro de quando minha mãe chegou em casa com ingressos para assistir Cats, O Musical em um teatro no Rio de Janeiro. Eu não consegui tirar os olhos do palco um segundo sequer e quando cheguei em casa, precisei entrar no computador para procurar pelas músicas e ouvir tudo de novo.

Quase sete anos depois, continua sendo um musical muito especial pra mim, e que me diverte poder ouvir as músicas e me imaginar na peça. No Natal de 2014, ganhei o livro que inspirou o musical e não poderia ter ficado mais feliz. Eu esperava encontrar um roteiro da peça, com as letras das canções, mas na verdade eram poemas curtos de uma série de gatos e uma breve menção da minha gata favorita, Grizabella. Ainda assim, foi muito especial ter ganhado o livro, pois renovou o meu amor pela peça.

A adaptação brasileira não deixou nada a desejar em relação à original. A diferença entre as duas é que a brasileira ganhou letras em português feitas pelo cantor, compositor e violinista Toquinho. Quando digo que Cats é maravilhoso, falo isso de todo o coração porque foi graças a ela que descobri que amo musicais. É como se Cats tivesse aberto as portas da encenação para mim e feito com que eu me apaixonasse por esse segmento tão único que é o teatro musical.  

O musical original é assinado por Andrew Lloyd Webber, o mesmo produtor musical de outras obras igualmente famosas como O fantasma da ópera, Evita e O mágico de Oz. Para compor as músicas, Webber se inspirou em 14 poemas do seu livro infantil favorito, Old Possum’s Book of Practical Cats, publicado em 1939 com ilustrações do próprio autor, o poeta T.S. Eliot. A estreia foi no West End de Londres, em 1981 e desde então a peça já ganhou inúmeros prêmios e foi encenada milhares de vezes, sendo uma das obras mais premiadas do produtor.

A história é sobre uma tribo de gatos, conhecidos como Jellicle Cats, que se reúnem uma vez ao ano para celebrar o Jellicle Ball, ocasião em que escolhem o felino que poderá passar para o lado de lá, ou Heaviside Layer, e voltar para uma vida melhor. O show é todo cantado, não tendo praticamente nenhum diálogo falado entre as músicas. O que acontece muitas vezes são versos cantados, que funcionam como uma espécie de ligamento entre as cenas. O cenário representa um lixão, ou terreno baldio abandonado com várias sucatas em volta, e permanece o mesmo durante quase todo o show.

Como eu expliquei, a história principal de Cats gira em torno da celebração do Jellicle Ball e a passagem para o Heaviside Layer, mas depois de ter visto a peça tantas vezes, eu percebi que existe uma narrativa subliminar na peça que é a história de Grizabella, the glamour cat. Esse poema não foi incluído no livro, pois T.S. Eliot o considerava muito triste para o enredo dos poemas, e por isso decidiu deixá-lo de fora, mas Webber resolveu homenageá-la adicionando na peça como uma espécie de sub-história, onde Grizabella é acolhida de volta na tribo e redimida por seus erros no passado.

Grizabella aparece ainda no primeiro ato e a sua presença não é bem recebida pelos Jellicle Cats. De pelagem suja e cinzenta, Grizabella anda como uma pária, renegada pela tribo e privada de toque ou de interação por todos os Jellicle Cats. As linhas de abertura da música Grizabella, the Glamour Cat, são do poema “Rhapsody on a Windy Night” e se referem a uma prostituta andando pelas ruas nas primeiras horas da manhã. Depois desse prelúdio, Grizabella canta a música mais famosa da peça, Memory. Nesse primeiro ato, a música é mais curta e Grizabella canta sozinha enquanto analisa sua situação atual. Ao final da música ela se afasta lentamente enquanto os outros gatos cantam uma espécie de canção fúnebre. Uns com desprezo e outros com pena.

 

You really had thought she’d ought to be dead
And who would ever suppose that that
Was Grizabella, the Glamour Cat?

 

O musical é dividido em dois atos, totalizando um total de 28 números, ao longo dos quais nos são apresentados alguns dos gatos do livro, como Munkustrap, o narrador da história; Old Deuteronomy, o líder da tribo; Mr. Mistoffelees; Rum Tum Tugger e Macavity, assim como pedaços da história. As músicas mais marcantes e que considero como umas das mais alegres de toda a peça são “The Old Gumbie Cat”, “Mungojerrie and Rumpleteazer”, “The Rum Tum Tugger” e “Skimbleshanks: The Railway Cat”, enquanto as mais tocantes são “Memory”, “Grizabella: The Glamour Cat” e “Gus: The Theatre Cat”. A dança também é um dos elementos especiais da peça. Durante a execução de “Jellicle Ball”, por exemplo, os atores chegam a dançar e cantar por cerca de 10 minutos sem parar, o que torna esse número uma das apresentações consideradas como as mais difíceis da história do teatro musical.

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Ariana com vênus em peixes e lua em câncer. Não gosto de justificar nada com signo, mas acho importante compartilhar essa informação. Moradora do Rio de Janeiro, e seja lá quem decide onde a gente vai nascer estava com o humor muito bom porque não poderia ter nascido em um lugar tão não-eu. Rio à toa na rua e disfarço com uma tossida para ninguém me achar louca. Detesto frutas, mas adoro exercícios físicos (que não girem em torno de musculação) e comida saudáveis. Não sei ter tempo livre e fico agoniada quando tenho férias, mas adoro ter tempo para tirar sonecas.

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