Sobre ser fã sozinha

É uma delícia gostar em conjunto. Quando essa mágica acontece, acontecem também sessões de cinema em grupo, conversas intermináveis sobre o motivo do fandom, muitas pessoas juntas cantando a mesma música ao mesmo tempo… É muito bom. É maravilhoso saber que a pessoa do lado entende exatamente o que você sente e está disposta a gritar junto – mas nem sempre isso acontece e não precisa ser necessariamente ruim. Nem tudo o que é nosso precisa ser de todo mundo.

Já deixei claro desde o título que esse texto é um relato de experiência, isso porque não tenho estudos sociológicos na bagagem que possam definir melhor esse tipo de vivência. Tenho na manga as minhas humildes sensações e percepções a respeito do assunto. Vamos tagarelar um pouco?

Quase ninguém conhece o meu livro favorito da vida. Não é que eu seja (ou almeje ser) a diferentona/pedante da literatura, muito pelo contrário. Geralmente estou pescoçando os lançamentos mais barulhentos e vivo espichando o olho para a lista de mais vendidos, mas às vezes dá vontade de ler aquele livro desconhecido de capa linda que alguma amiga está carregando por aí. . Que atire o primeiro marcador de páginas quem nunca nunquinha teve vontade de ler um livro só de olhar para a capa dele. Pois bem, cismei tanto que se não me engano dei conta de ter um exemplar pra mim antes mesmo da minha amiga terminar de ler o dela. Essa é a história de como me encontrei com meu livro favorito da vida.

“Coisas que ninguém sabe” foi escrito pelo italiano Alessandro D’Avenia, um autor que quase ninguém conhece e seria possível dizer que dentre os que conhecem, poucos gostam. Dentro do pequeno grupo de conhecidos que também gostam dele, nenhum entende a minha obsessão. No início eu ficava genuinamente chateada. Como assim emprestei meu livro-favorito-da-vida para uma colega que tem gostos parecidos com os meus e ela não conseguiu passar da página 20? Como assim minha soul-mate literária leu e não achou nada demais? COMO ASSIM as pessoas não estão vendo o que eu achei nessas páginas? Foi pensando nessa última pergunta que eu desisti de sofrer e aprendi a abraçar a causa. Todas as histórias são sobre nós.

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Tudo o que amamos é sobre nós porque o amor depende do sentido que aquilo teve para gente. Aquela música me encantou porque algum contexto da minha vida bateu com ela. Aquele filme me derrete toda porque a história da protagonista tem tudo a ver com os meus ideais de vida. Tem sempre algum detalhe, às vezes mais claro, às vezes mais imperceptível, que faz com que amemos o que amamos.

A narrativa do Alessandro me deixou maluca – mas é porque eu já costumo ser a maluca das narrativas. Acho que qualquer história, por mais sem graça que pareça, pode se tornar magistral quando escrita por alguém que sabe o que está fazendo. Ou melhor, que sente. A história da menina Margheritta, a separação de seus pais, seus dramas, aprendizados e sua relação com sua avó realmente parece não ter nada demais — e eu não me sinto especial por ter conseguido enxergar ali algo excepcional. É apenas que algo no meu contexto e história provocou algo tão forte em mim que um livro que aparentemente não é especial pra ninguém acabou se tornando uma coisa importantíssima na minha vida. Curtir um fandom é maravilhoso, mas eu to aqui pra dizer que também está tudo bem se apaixonar sozinho. Também está tudo bem em entender que nem tudo o que você ama precisa ser legitimado, seja pelo seu grupo de amigos, pela mídia ou por qualquer reconhecimento público como um prêmio. Eu amo a Taylor Swift. Amo que minhas amigas a amem também. Amo que a gente cante junto, amo que ela tem milhões de fãs pelo mundo afora e viva recebendo prêmios. Ela tem todo o reconhecimento que eu poderia querer para alguém que admiro pacas. Mas posso ser muito feliz também amando “Coisas que ninguém sabe” by myself e dando um jeito eu mesma do autor sentir esse reconhecimento. O autor já sabe que a história dele me derreteu porque fiz questão de agradecê-lo pelo twitter. E ele me respondeu. E quando eu mandei fazer um colar com a capinha do livro como pingente, postei a foto e o marquei. E ele retweetou. E ficamos ambos felizes, aposto.

Ser fã pode ser sobre curtir em galera, mas também pode ser sobre uma ligação (in)explicável que rola apenas entre você e o que você ama. Experimente curtir esse lado não tão debatido da aventura que é “sentir demais” – afinal de contas, os sentimentos, eles são os únicos fatos.

About Ana Luísa Bussular 1 Article
Analu, 24 anos. Nascida no Espírito Santo, criada em São Paulo, mora em Curitiba e quer fugir para o Rio de Janeiro. Jornalista e futura produtora editorial. É fã do verão, de suco de maracujá, de literatura e de Taylor Swift, em todas as ordens possíveis.

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