Capa de "Ctrl", de SZA

A vulnerabilidade controlada de SZA em Ctrl

Conheci Solana Imani Rowe a.k.a SZA por causa da Rihanna. A cantora aparece logo no comecinho de ANTI (2016) e desde então venho esperando pelo seu álbum de estreia. Em junho, alguns dias antes do também aguardado Melodrama da Lorde, ele finalmente veio ao mundo.

Ctrl inicia com uma pequena gravação: “That is my greatest fear. That if, if I lost control. Or did not have control, things would just, you know. I would be… fatal.” (“Esse é meu maior medo. Que se, se eu perdesse o controle. Ou não tivesse controle, as coisas só, sabe. Eu seria… fatal.”) É a mãe de SZA quem fala, mas poderia ser muito bem eu ou você confessando algo parecido. Controle é uma ilusão e nós sabemos disso. É inútil querer controlar a vida, o futuro a até mesmo o que fazemos com nosso tempo. Só temos poder sobre uma parcela mínima das coisas, o resto fica nas mãos do acaso, das outras pessoas, não há garantia de nada. Mas não tentar é impensável. “And if it’s an illusion, I don’t want to wake up. I’m gonna hang on to it. Because the alternative is an abyss, is just a hole, a darkness, a nothingness. Who wants that? You know?” (“E se é uma ilusão, eu não quero acordar. Eu vou me agarrar a ela. Porque a alternativa é um abismo, é só um buraco, uma escuridão, um nada. Quem quer isso? Sabe?”) a mãe dela fala novamente na última faixa. “20 Something” é talvez música mais identificável e millennial entre as 14. “How could it be?/ 20 something, all alone still/ Not a thing in my name” (“Como assim? 20 anos, ainda sozinha, nada no meu nome”), SZA questiona no pré-refrão, como se estivesse pensando sobre o futuro em uma noite de insônia. A letra ainda vai falar sobre um relacionamento que acabou sem ela prever e/ou antecipar o fim, não querer que os 20 e poucos acabem e tentar manter o que sobrou dos seus amigos.

“Hopin’ my 20 somethings won’t end
Hopin’ to keep the rest of my friends
Prayin’ the 20 somethings don’t kill me, don’t kill me”.

(“Esperando que meus 20 anos não acabem
Esperando continuar com o resto dos meus amigos
Rezando para os vinte anos não me matarem, não me matarem.”)

SZA sabe que controle é uma quimera: não existe, mas mesmo assim a imaginamos. Criamos histórias sobre nossas vidas e tentamos torná-las reais, porque o contrário é sombrio e deprimente. Mas em Ctrl quem detém todo o poder, quem decide como e o que deseja contar, é ela. A produção espetacular do álbum sempre coloca em foco sua voz e, conforme já foi dito lá em “Consideration“, “Do things my own way darling/ You should just let me” (“Faço as coisas do meu jeito, querido, você só devia deixar”), pois o resultado é maravilhoso.

Voltando ao começo, “Supermodel” é uma carta aberta a um antigo relacionamento e fala sem rodeios os acontecimentos que causaram seu fim (spoiler: a culpa foi dele). Nada é ficção: “there’s a song where I talk about sleeping with my ex-boyfriend’s friend because he purposefully left me on Valentine’s Day, which will be the first time he hears about it” (“Tem uma música na qual eu falo sobre transar com o amigo do meu ex-namorado porque ele me deu um pé na bunda no Dia dos Namorados, e vai ser a primeira vez que ele vai ouvir essa história”), falou em entrevista. Além disso, suas próprias inseguranças são expostas na canção: “Why I can’t stay alone just by myself?/ Wish I was comfortable just with myself” (“Por que não consigo ficar sozinha, só eu? Queria ficar confortável comigo mesma”). “Supermodel” é triste demais pra ser ouvida rapidamente, ainda mais com a guitarra melancólica à la Frank Ocean, e coloca a expectativa para o resto de Ctrl, que não decepciona, lá em cima.

Entre a primeira e a última há muita coisa maravilhosa ainda. Inclusive uma música inteira dedicada a vaginas com participação do colega de gravadora Kendrick Lamar. Apesar da palavra pussy ser repetida 28 vezes, segundo um contribuidor do Genius, “Doves in the Wind” é o oposto das inúmeras canções que objetificam a mulher por aí. Já a segunda das três colaborações fica com Travis Scott. SZA se põe em primeiro lugar e está cansada de homens compromissados indo atrás dela em “Love Galore”. No entanto, o mais surpreendente são os versos: “Love on my ladies, luh-love to my ladies, uh (true) / Dated a few (straight up)” (“Amo minhas garotas, a-amo minhas garotas, é (verdade), namorei algumas (real)”), que passaram despercebidos por mim todas as vezes que ouvi a música e só descobri por causa desse texto.

Em “The Weekend” a perspectiva da outra e da namorada se misturam e confundem-se para falar de uma cara que fica de “contatinhos” e acha que as mulheres envolvidas não vão saber. SZA pode não ter controle, mas tenham certeza que ela sempre sabe. “Prom” é aquela sensação de que deveríamos estar fazendo alguma coisa importante, só que ninguém tem ideia do que seria essa coisa. “Fearin’ not growin’ up/ Keepin’ me up at night/ Am I doin’ enough?/ Feel like I’m wastin’ time” (“Com medo de não crescer, passando a noite em claro, estou fazendo o bastante? Parece que estou perdendo tempo”). As batidas distorcidas ao longo da música lembram uma fita rebobinando enquanto ela promete que vai ser melhor/fazer melhor, mas que por enquanto continuará onde está um pouco mais. Segundo a cantora: “You don’t always have to rush. You can always just grow” (“Você não precisa correr sempre. Você pode só crescer”).

Saber que garotas perfeitas não existem não impede ninguém de tentar ser uma. Vivemos em um mundo que a todo momento tenta enfiar goela abaixo que há uma maneira correta para existir. Esse medo de ser inadequada aparece em “Normal Girl”, porque é preciso primeiro reconhecer nossas inseguranças para poder lidar com elas. “I wish I was a normal girl, oh babe/ I’ll never be, no never be, uh” (“Eu queria ser uma garota normal, mas eu nunca serei, nunca serei”).

Ctrl mistura sintetizadores e guitarras ao tratar de temas quase universais e ainda assim tão particulares como relacionamentos, términos e inseguranças. A sinceridade assustadora nas letras de SZA junto à voz marcante não deixa espaço pra indiferença. Suas vivências são sentidas em cada música, mostrando que é possível falar sobre sentimentos, ser vulnerável e ainda estar em controle do que sente. E isso é o que faz esta mulher ser tão incrível aos meus olhos.

 

Faixas indispensáveis: todas.

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