O Terno: A banda do millennial

O Terno

Ter nascido nos anos 90 significa, em grande parte, ter vivido uma educação tripla: a da escola, a de casa e a da internet. Nessa época, nem todos tinham computadores dentro de casa, é verdade, mas existia essa energia eletrizante de saber que tinha uma máquina fascinante e ainda um pouco assustadora que podia nos conectar e nos dar as mais diversas informações. E mesmo que nossos pais dissessem para não confiarmos com quem falávamos na internet e os professores frisassem desesperados que não podíamos acreditar em tudo que ali líamos, nós sabíamos que as coisas não eram bem assim.

Se os adolescentes dos anos 90 desbravaram os primeiros espaços internéticos, foram as crianças que realmente se educaram naquele mundo. Não foram as aulas de arte que formaram nosso senso estético, não foram as aulas de redação que nos ensinaram a argumentar. Por mais que a escola nos ensinasse sobre história, matemática e geografia, e que nossa família nos orientasse eticamente, nós aprendemos sobre texto, imagem e diálogo na internet. Nosso humor, nossos gostos, nossa empatia, nossa confiança. Nós fomos educados em um mundo estranho e mágico que só entrava quem soubesse a senha. Nós crescemos nesse mundo, nos formamos ali. E isso, é claro, teria as mais diversas consequências.

A inquietação de querer fazer algo impactante, a vontade profunda de se conectar com as pessoas, o tédio da falta de novidades, o estresse de ter que fazer um monte de coisa junto e em pouco tempo, a culpa de você nem sabe direito o quê, a auto depreciação velada com humor, o receio e desejo de amar, a sensação de que tudo já foi feito, o medo de não ser a melhor de si mesmo, a certeza de que nada mais é sagrado. Tudo isso recortado e colado junto a uma quantidade exorbitante das referências mais bizarras. É isso o que faz do jovem millennial, bom… um jovem millennial.

Talvez todas as gerações tenham passado pelas mesmas dúvidas e problemas, talvez todas as épocas tenham sido difíceis para ser jovem e todos os adultos tenham olhado com desdém para o comportamento de quem já teve vinte anos e esteve a caminho de se encontrar no mundo. Mas enquanto não nos encontramos, ficam dentro de nós todos aqueles sentimentos – que são diferentes dos que já vivemos e ainda não sabemos identificar exatamente suas propriedades até que alguém cante sobre o assunto e nós finalmente possamos entender, e cantar, e possivelmente dar aquela choradinha no ônibus enquanto escutamos a música em um dia particularmente difícil.

E quem canta pro millennial chorar no ônibus? Lorde? Harry Styles? Beyoncé? Sim, claro, todos esses artistas são maravilhosos e rendem uma boa choradinha. Mas aqui é BR e por mais que gringos toquem nossos sentimentos, a compreensão total só poderia vir daqui do país tropical.

Tudo começou em 2012, apesar da mitologia de 1966. Foi quando um novo trio com nome-trocadilho de O Terno apareceu cantando sobre me diz meu deus o que é que vou cantar se até cantar sobre me diz meu deus o que é que eu vou cantar já foi cantado por alguém em seu primeiro single que já dava para saber que havia algo ali. O desespero de criar algo novo, a multiplicidade de referências musicais, o humor. Tudo em seu primeiro álbum, 66, fazia d’O Terno um espelho para os millennials ali em 2012.

Ainda sem termos vivido os atos contra o aumento da tarifa de ônibus, a Copa e o 7×1, o impeachment de nossa presidenta, todos nós éramos jovens inocentes que queriam mudar algo no mundo, mesmo que ainda não soubéssemos direito o que ou como. E, de alguma maneira, as letras d’O Terno e seu rock desesperado não eram uma nostalgia anacrônica, mas um desabafo sincero de nossa vontade e nosso medo de mudar.

Bastava saber se, de agora em diante, eles iriam nos acompanhar, ou se aquilo tinha sido um evento único como tanto já vimos acontecer no mundo das artes. Mas O Terno não decepcionou. Seu desejo de criar algo sempre foi verdadeiro e na música foi onde os três millennials encontraram sua forma de guardar tudo que ouviram ou viram ou sentiram, tudo que duvidaram e descobriram. E todas suas experiências eram tão pessoais que se tornaram universais. Era a nossa cultura virtual finalmente tomando uma forma física – no caso, a forma de três garotos paulistanos.

As piadas, as referências mais esdrúxulas, a desilusão de um amor platônico, o medo do medo, a culpa de tudo. De repente, tudo se desenrolava nas letras do vocalista Tim Bernardes e todos aqueles sentimentos estranhos que vêm com o crescimento fizeram sentido. O amor que antes era como morrer aos poucos foi se tornando saudável, todos nós fomos aprendendo e, quando menos esperávamos as coisas realmente estavam melhores do que parecia.

A musicalidade lotada de referências que passeavam do rock gringo ao samba, as letras sobre as mais diversas indagações dignas de excelentes sessões de terapia e a imagem daqueles três moleques claramente zoando muito mais do que levando as coisas a sério fazem d’O Terno a personificação de #relatable. Mas a confirmação final de que eles são a banda do millennial veio no diana 18/07, uma terça-feira, com o lançamento do novo clipe de “Não Espero Mais”.

O clipe é um verdadeiro ~surfe na web~. Como em um dia ocioso, passamos pelos mais diversos sites e aplicativos – do Youtube ao Tinder, do Whatsapp ao Buzzfeed – lendo, vendo e falando sobre O Terno. Saímos do computador, vamos para o celular, voltamos para o computador, recebemos chamadas de vídeos, mensagens, muitas novas janelas se abrem, muitos gifs aparecem. É um dia qualquer na internet, mas dessa vez a trilha sonora não vem do seu Spotify.

Se eu acreditava que era difícil acompanhar minhas conversas e meus textos por causa da quantidade exorbitante de referências esdrúxulas, o clipe de “Não Espero Mais” me mostrou que não existe isso de referências em excesso nessa tal contemporaneidade. Site dos menes, animais tocando instrumentos, Nazaré confusa, Caetano Veloso jovem, tudo está naqueles quatro minutos e quinze segundos de vídeo, até mesmo uma cena do cult mais cult que existe, o filme Zabriskie Point. As mais diversas épocas se encontram dentro do clipe: anos 60, 80, 90, 2000. Tudo à luz dos novos anos 10. Mas mesmo os anos dentro dos anos 10 já parecem velhos e o gif do comentário do Oscar de 2016 ou mesmo a Gretchen dublando (ou melhor: lip- synching) a Katy Perry já são ultrapassados para nós. E é aí que entra a expertise millennial.

Educados pela internet, nós entendemos o funcionamento do tempo online. Nós estamos inseridos nessa lógica. É o que nos faz sofrer quando não recebemos uma resposta imediatamente, é o que nos faz duvidar se postamos algo #top se ninguém curte logo, é o que nos faz rolar os olhos quando uma tia nos mostra um vídeo dos Minions em pleno 2017. Mas é essa lógica que também recupera as coisas mais surpreendentes – como a Cuca, o Chapolin Colorado, clipes antigos da Xuxa, um vídeo do Caetano Veloso dizendo que não consegue gravar aquilo que você falou porque você fala de uma maneira burra. Na internet, tudo é ou pode ser recuperado, porque a noção de eterno se modificou.

Havia até pouco tempo essa ideia de que eterno era tudo aquilo que, de alguma maneira, se petrificava no tempo e, assim, sobrevivia. Criar algo eterno era a elevação máxima de sua obra, uma espécie de honra para quem conseguisse. Os maiores poetas, os pintores mais importantes, as bandas que mudaram a história. Eternidade era um dos componentes essenciais da Arte™, e todos nós queríamos – ou devíamos querer – chegar nesse patamar. Havia esse discurso de que, mesmo falando sobre a modernidade, era necessário chegar nesse ponto de virada em que aquilo que você criava ultrapassava o seu tempo e se estabilizava nesse lugar que chamávamos eternidade. Foi o que aconteceu com Andy Warhol e Oswald de Andrade, foi o que aconteceu com Woody Allen.

Mas as tecnologias mudaram e, agora, tudo aquilo que acreditamos que seria perdido está arquivado em algum lugar da internet. Algum link que mandamos por mensagem, algum e-mail na pasta de excluídos, em alguma nuvem, na segunda página do Google, no canto mais longínquo da deep web. E se está na internet, aquilo pode ser recuperado a qualquer momento – basta alguém encontrar em seu caminho. Um tweet antigo, um vídeo de escola que foi colocado no Youtube, uma foto dos tempos áureos do Orkut. Tudo pode voltar a qualquer momento, fora de contexto muitas vezes, recuperado como crítica ou meme. Ao contrário das antigas gerações, o que aprendemos é que ter algo eternizado não é uma honra – inclusive, pode vir a se tornar um inferno quando percebemos que isso pode ser uma maneira dos outros não te permitirem mudar, como ocorre em casos de posts antigos recuperados.

Ao mesmo tempo, percebemos que o eterno não é sacro. Tudo está sujeito a mudanças e elas podem vir de qualquer pessoa. Não existe mais esse patamar de elevação, e nosso respeito é conquistado da mesma maneira que escondemos nossas inseguranças: através de memes. Assim, vamos modificando imagens e textos, quebrando a importância da eternidade com o nosso riso, transformando esse conceito ironicamente ultrapassado. Nós, educados na internet, aprendemos que ser eterno, na verdade, é ser imortal – e, no fim das contas, é uma grande sabedoria entender que ser imortal só é o que não morre no final. Não existe honra ou elevação.

Não é à toa que Tim Bernardes já deu inúmeras entrevistas dizendo que o intuito d’O Terno não é fazer uma música vanguardista. Como bons millennials, os três integrantes sabem que o mais interessante não é ficar para a história, mas sim ressignifica-la. É assim que todas as referências de seu novo clipe sobrevivem. Porque não é sobre aquelas imagens exatas e seus significados hoje em dia, mas sobre a possibilidade de se reinventar o tempo todo através da internet.

É uma celebração de nossa cultura da única maneira possível: com referências demais para se citar em uma análise, piadas internas, humor autodepreciativo e a tentativa de sair do tédio que nos levam a checar o celular nos momentos mais aleatórios (como, por exemplo, enquanto estamos gravando um clipe). É por isso que é possível ter uma página falsa do BuzzFeed falando que o Bruno do Acre previu o sucesso da banda, um link falso para um mashup de Blink-182 e O Terno (apesar de que peço encarecidamente para que alguém faça isso; recomendo “I miss you” com “Eu vou ter saudades”), ou a Cuca perguntando se alguém conseguiu assistir o clipe em 3D. Mas isso tudo junto e misturado ainda não seria o suficiente para confirmar o status d’O Terno como a banda do millennial e, assim, Biel Basile, Guilherme “Peixe” D’Almeida e Tim Bernardes dão um passo além e ressignificam sua própria música.

O que era uma letra sobre um amor saudável com uma pessoa (como podemos entender ao pensar no resto do álbum Melhor do que parece) é ressignificada nesse novo contexto do clipe, tornando-se uma música de amor à própria internet e suas possibilidades sem fim. Com tantas janelas abertas e fechadas ao longo do clipe, “Não espero mais” se torna praticamente uma linda declaração ao wifi que não cai o tempo todo, afinal, é com ele que não esperamos mais e podemos suprir a maior necessidade millennial: a de se conectar com os outros. E se essa conexão puder acontecer com a estética vaporwave, seremos felizes como não fomos jamais.

About Clara Browne 5 Articles
Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Entusiasta do musical Jesus Cristo Superstar, arte moderna e astrologia. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual idealizou e co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela é escritora no mundo mágico da internet. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa, mas não se incomodaria em ser trouxa casada com Harry Styles.

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