Uma cruzada para ver Sleater-Kinney

A aventura começa na cidade de Olympia, em Washington (EUA), mas infelizmente não passa pelo Brasil. O ano é 1994 e as amigas Carrie Brownstein e Corin Tucker se juntam para formar uma banda. Deram a ela o nome de uma estrada que viam em uma placa no caminho para o local em que elas ensaiavam: Sleater-Kinney.

O objetivo daquele som era contestar, bater de frente, criticar o status quo. Nascida meio como um projeto paralelo das duas guitarristas, que já estavam em outras bandas, Sleater-Kinney se afirmou no cenário musical no seu terceiro disco, “Dig me out”, e com a chegada de sua baterista definitiva: Janet Weiss.

Com o lançamento do álbum “Dig Me Out”, em abril de 1997, a cobertura da imprensa aumentou em progressão geométrica, assim como o número de fãs. A turnê do disco foi crescendo a cada nova cidade e até o seu fim o fandom da banda já estava tão fortalecido que pessoas chegaram a viajar para acompanhar os shows dentro do território norte-americano.

Foi um período decisivo para firmar estabilidade com a gravadora Kill Rock Stars, emplacar na mídia para que a banda ficasse conhecida por todo o país, levar os fãs para os shows e para que a sonoridade do trio fosse respeitada pelos técnicos de som nas casas de shows por onde passaram, algo que não foi um processo muito fácil devido principalmente ao machismo que é tão enraizado no mundo da música e principalmente do rock.

Fast Forward. O ano é 2006 e a banda entra em uma pausa de tempo indefinido. Desde 1997, a banda lançou mais quatro discos: “The Hot Rock” (1999), “All Hands on the Bad One” (2000), “One Beat” (2002) e “The Woods” (2005). Nesta trajetória, Sleater-Kinney foi consagrada com o título de “Melhor Banda do Mundo” por um importante crítico musical, rodou o mundo em turnês, fez vários vídeo clipes, inspirou e conquistou milhares de fãs em todos os lugares com acesso a internet banda-larga.

O anúncio do hiato de tempo indefinido foi um choque e motivo de muita tristeza para aqueles fãs que passaram por anos de identificação com essas três mulheres, que mostraram que é possível fazer um som crítico, contestador e político, e ao mesmo tempo abraçar sua identidade de gênero ou quebrar todos os rótulos sobre sexualidade, da forma que for melhor. Sleater-Kinney sempre cantou a contestação e aceitação, dando palavras a sentimentos que nem todo mundo compreendia até ouvir aquele som.

Os fãs antigos e novos sempre guardaram aquela centelha de esperança que um dia a banda fosse sair dessa pausa e voltar para as estradas, para o mundo. E deu certo: em 2014, Sleater-Kinney estava no porão da Janet criando e ensaiando o que veio ao mundo com o nome de “No Cities To Love”, lançado em janeiro de 2015, e logo as datas de shows já estavam sendo marcadas para a turnê de divulgação do novo disco (e da nova fase, quase dez anos depois do último show feito).

Nenhuma cidade (brasileira) para amar

“Sleater-Kinney tava fazendo a primeira turnê depois de vários anos sem tocar e gravar, eu tinha visto na internet que a turnê era grande, mas ainda não tinha fechado nenhuma data na Filadélfia”, conta Marina Salles, 20 anos, que estava passando um tempo nos Estados Unidos com a tia. “Quando voltei a pesquisar sobre, a data estava fechada e os ingressos esgotados. No dia do show fui até o lugar, e perguntei pra todos na fila se tinham ingressos extras para vender”.

Depois de duas horas perguntando para todos que chegavam na casa de shows se havia um ingresso para vender, Marina conseguiu comprar a entrada por 30 dólares, o preço exato que o ingresso foi vendido na bilheteria. Segundo ela, a experiência foi incrível porque ela pôde ver uma banda que ama ao vivo em uma casa de show com boa infraestrutura, uma banda de abertura legal e por um preço acessível. “Chorei horrores e cantei até morrer. Eu estava num show do Sleater-Kinney, não tinha como ser ruim”, conta Marina. A ida ao show só foi possível porque ela já estava no país e conseguiu encontrar um ingresso extra para comprar na porta, mas a banda já fez com que muitos outros fãs brasileiros se deslocassem ainda mais.

Sleater-Kinney toca no Union Transfer, na Filadélfia, em fevereiro de 2015. (Crêdito: Marina Salles)

Em dezembro de 2015,  Beatriz Barrett, de 21 anos, foi a Nova York para assistir a um show entre a maratona de uma semana marcada na cidade pela banda. “Eu decidi que precisava ir”, conta Beatriz. “Em fevereiro a banda tinha feito um show em Nova York e achei que era muita loucura ir. Me arrependi muito. E se a banda só ficasse junta por pouco tempo?”. Grande parte dos admiradores da banda acreditou que esta semana de shows seria a grande despedida da turnê e talvez até da banda. Os ingressos foram muito concorridos e todas as datas ficaram esgotadas, com as casas completamente cheias e no limite de lotação.

“Eu amo ir em shows e tenho uma lista de bandas que preciso ver se houver a possibilidade”, explica Beatriz. “Não gasto dinheiro com muitas coisas fora isso, tenho literalmente um dinheiro separado sempre pra essas ocasiões”. De acordo com ela, as passagens de avião (algo que costuma ser a maior despesa da viagem) estavam compradas para junho porque geralmente ela visita seu pai que mora em uma cidade próxima a Nova York pelo menos uma vez ao ano. Para que tudo desse certo, ela mudou a data das passagens, comprou ingresso para o show e conseguiu ver uma de suas bandas favoritas. Além disso, ela destacou o quanto foi interessante conhecer fãs de todas as partes do mundo que estavam na mesma situação que ela, viajando para assistir Sleater-Kinney.

A ideia de que a turnê de No Cities To Love era uma oportunidade única para ver a banda também levou as amigas Ana Ferraz, de 32 anos, e Ana Laura Leardini, de 27, a planejarem uma viagem para os Estados Unidos. Ana Laura tinha uma viagem marcada para outra parte do país em uma data próxima, mas teve que juntar um dinheiro às pressas para conseguir prolongar a sua estadia e deslocar-se para Chicago, onde encontraria Ana Ferraz para o show que veriam juntas. Sleater-Kinney desperta sentimentos de “amor e pertencimento” para Ana Laura: “É como se a banda fizesse parte de mim”. Ela conta que se sentiu muito privilegiada por conseguir viver toda essa experiência.

A viagem das duas Anas também foi marcada por vários programas turísticos e ótimas experiências pela cidade de Chicago, mas ambas destacam que gostariam também de ver Sleater-Kinney no seu próprio país. “Ver as bandas no Brasil é sempre especial porque você assiste com seus amigos e pessoas que acabou conhecendo em função da música”, explica Ana Ferraz. “Fora do Brasil é um pouco solitário, apesar de estar com amigos. Se Sleater-Kinney viesse eu ia amar. Com certeza iria e o show seria maravilhoso. Um monte de mina que admiro também teria a oportunidade de ver”.

Para todas as entrevistadas, a chave para conseguir fazer uma viagem para finalmente ver Sleater-Kinney foi o planejamento, além de economizar e guardar dinheiro para este tipo de experiência. Acompanhar a agenda da banda, comprar os ingressos com antecedência e  garantir passagens e hospedagem são as principais tarefas de um fã viajante. E já que a viagem foi feita, por que não aproveitar para conhecer os pontos turísticos e a cultura local? Além de uma experiência incrível vendo uma banda amada, de quebra tem a viagem, que é uma oportunidade para ter muitas vivências novas e emocionantes.

No entanto, se você (assim como eu) também é um fã de Sleater-Kinney e não conseguiu ainda se organizar ou juntar o dinheiro necessário para recorrer a uma viagem internacional, mas acredita que sua cidade tem o que é preciso para ser amada pelo trio, há algumas coisas que você pode fazer para demonstrar que a banda é desejada no Brasil. A primeira é o famoso “Come to Brazil” nas redes sociais, mas também há formas mais “oficiais” de deixar sua demanda visível. O site “Queremos” é uma delas: qualquer pessoa pode fazer um perfil nele e requisitar diversas bandas de todo o mundo. Outra forma é mandar um e-mail para a gravadora que gerencia os discos e turnês da banda. No caso de Sleater-Kinney, a Sub Pop é a responsável e entrando em seu site é possível encontrar as informações de contato. O site oficial da banda também traz os contatos dos agentes para endereçar o seu pedido formal.

Obviamente não há nenhuma garantia que isso irá trazê-las, mas a união dos fãs sempre é importante para mostrar que há público para a banda e a turnê terá sucesso ao invés de prejuízo. Quem sabe dessa forma, enfim, o Brasil terá o privilégio de ter algumas de suas cidades sendo amadas por Sleater-Kinney.

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Meio jornalista, meio perdida. Totalmente entusiasta do movimento Riot Grrrl, feminismo, música, literatura e gatinhos. Está sempre em shows, tem 24 anos e vive em São Paulo.

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