Harry Styles voando no clipe de "Sign of the Times".

Harry Styles e os últimos românticos

Nós já sabíamos que Harry Styles era a reencarnação de Jesus Cristo no momento em que “Sign of the Times” foi lançada. Em uma profecia divina, foi anunciado o apocalipse, e Harry logo nos avisou: nós temos que sair daqui. Mas nunca nos foi dito para onde ir. Essa era uma resposta que ficava a escolha e imaginação dos ouvintes. O Reino dos Céus era uma escolha nossa – até o lançamento do clipe do single.

A primeira cena já é o suficiente: o descampado ao pôr do sol, o mar mais britânico que existe sem nenhuma onda, a grama alta amarelada, as pedras e colinas, Harry Styles em seu sobretudo azul escuro. Tudo nos remete à clássica imagem do Romantismo inglês. Não importa o quão moderna e rock n’ roll seja a bota preta de Harry ou a sobreposição de casacos da Gucci (claro), a realidade é que look e cenário saíram direto de um romance da Jane Austen, e quem discordar disso vai entrar em briga de bar comigo. Digo, Harry já tinha dado a dica de que ele não está tão longe de ser o novo Mr. Darcy em seu último photoshoot para a Rolling Stone, mas aqui ele se elevou (han han?!). Apesar de faltar a camisa branca aberta, é impossível não visualizar Mr. Darcy (Harry) tendo caminhado sei lá quantas horas para pedir a mão de sua amada Elizabeth Bennet (eu, você, todas as mulheres do universo) ao fim do mais incrível romance já escrito #fangirl.

Mr. Darcy em "Orgulho e preconceito" e Harry Styles em "Sign of the Times".
Harry “Darcy” Styles.

Quando Harry anunciou o apocalipse, ele construiu a negação dessa realidade pouco a pouco – desenvolvendo a aceitação inicial de que o mundo vai acabar até a negação completa desse destino. Ficava a dúvida: precisamos construir um mundo novo, longe desse que vivemos no sentido de mudanças éticas que atingem o comportamento de uma sociedade, mudando com isso nossa cultura individualista e capitalista, OU… precisamos ir para algum lugar onde política jamais seja uma questão, podendo viver num mundo idílico que sempre terá um final feliz?

A primeira cena do clipe, no entanto, nos diz diretamente que, pelo menos na visão de Harry, a resposta correta é a segunda. A estética romântica entrega toda a ambiguidade da música, colocando-nos apenas uma única solução: o escapismo completo da realidade.

Retomando as aulas de literatura do colégio, o Romantismo se caracteriza principalmente por:

– retomada do eu, ou seja, deixar de lado as questões do mundo e voltar-se para a sua interioridade, seus sentimentos, sua individualidade, sua perspectiva única quanto a tudo que está a sua volta – a ideia é que tudo no mundo é subjetivo e, portanto, o mais importante é o eu e a minha visão de mundo. É o bom e velho egocentrismo que nos faz revirar os olhos hoje em dia, mas que tem uma ou outra vantagem;

– exaltação da alma, ou seja, voltar-se aos seus sentimentos e não ter medo de expressá-los. Em bom português, foi o momento histórico em que foi liberado o mimimi, e toda a Arte™ é sobre sofrência;

– pessimismo, ou seja, o bom e velho “o mundo tá horrível e todos nós vamos morrer de tuberculose antes dos 30” (o que, em defesa dos românticos, acontecia com bastante frequência na época);

– escapismo, ou seja, basicamente uma versão dos 1800 de “Vamos Fugir” do Skank, que levou os românticos ou à exaltação dos vícios, hoje em dia popularmente conhecido como “beber pra esquecer”, mas recuperando a década passada também podemos considerar “dorgas riariaria”; ou à ideia de nome pomposo fugere urbem, que era a fuga da cidade e retomada da vida no campo, vista pelos românticos como um estilo mais simples de se viver, o que leva à exaltação da natureza junto à idealização de um estilo de vida que já se transformava com a revolução industrial;

– idealismo, ou seja, a idealização de um mundo sem sofrimentos, em que tudo é fácil e simples e lindo. No fim, era aquela coisa de olhar para o passado e dizer MAS NAQUELA ÉPOCA TUDO ERA MELHOR NÃO É QUE NEM ESSES JOVENS DE HOJE EM DIA QUE SÓ PENSAM [insira aqui qualquer coisa].

E aí acontece que ao colocar a estética Saí De Um Romance Da Jane Austen, Harry Darcy Styles também recupera todas essas ideias românticas. Ele nos diz: nós temos que sair daqui E CRIAR UMA VIDA NO CAMPO COM NOSSO MOZÃO DANE-SE AS TRETAS VAMBORA.

Mas aí vem um plot twist muito doido. Porque aí, meu irmão, Harry Styles voa. VOA.  V O A !

Harry Styles voando no clipe de "Sign of the Times".

Gif de Rupert Grint com a legenda "é nóis que voa, bruxão!"

No começo, é só uma voadinha suave, nada demais. Ele volta rapidinho pro chão com seu estilo de Mr. Darcy millennial, apesar de começar a perigar umas magia avatar lok Harry Styles Darcy Potter – quantos sobrenomes esse gatinho merece? que já te deixa ixperta pro que quer que vá acontecer. É a mesma cena bucólica romântica, mas agora no limite da magia até que… HARRY VOA DE VERDADE!!!!!!!! Sem o objetivo de pegar o pomo de ouro e sem vassoura, ele só levanta do chão e se eleva aos ares – muito mais como um Jesus Cristo gatinho pós-crucificação ou um Peter Pan cansado e consciente da guerra do que como um herói romântico ou O Escolhido para salvar o mundo bruxo. O que uma virada de bateria não faz com as pessoas, não é mesmo?

Harry Styles voando sobre o mar ao lado de Peter Pan do filme da Disney.
Harry “Peter Pan” Styles.

As referências são múltiplas. Faz parte da cultura millennial internética educada pelo cânone modernista. Mas isso não anula a estética romântica, ao contrário: apenas reforça a mensagem. Se não bastasse o idealismo bucólico em terra, Harry se eleva aos ares, reforçando a necessidade de sair daqui. Não é um “tô fora” *levanta e sai andando*, mas um “tô fora” *levanta e SAI VOANDO POR AÍ PORQUE CAMINHAR NÃO BASTA PRA ME LIVRAR DESSA PORCARIA*. Nem o campo idílico resolve a situação mundial. O pessimismo com o mundo é tanto que a terra já não é o suficiente para Harry. Não basta fugere urbem, é preciso mais, é preciso fugere mundis.

No entanto, apesar de deixar o solo, o voo de Harry não deixa a Terra. Sua fuga muda sua perspectiva, podendo ver o mundo de cima, como um todo. É uma ação aquariana como Harry: mudar de lugar para ver melhor o mundo. A voar, Harry consegue explorar novos lugares que não teria como conhecer a pé, a forma com que ele interage com o mundo é outra. Nos ares rarefeitos, se tem a perspectiva do todo – o que é a definição do signo de aquário.

Existe uma estranha ambiguidade nisso. O escapismo, por definição, é uma medida egoísta – é priorizar a si antes de qualquer outra coisa. Mas a fuga de Harry o permite mudar de perspectiva sobre o mesmo espaço em que ele estava antes. Sua fuga não o tira do cenário em que estava, mas o permite novos olhares que o levam a descobrir coisas novas dali. São novas perspectivas que o tiram do chão (ba dum tss). Harry explora não só a terra, mas também os ares e a água. Ele visita cachoeiras, sobrevoa de florestas e os picos mais altos das montanhas. Harry corre sobre as águas da mesma maneira que Jesus caminhou sobre elas. E, não, não existe nenhum caminho de pedras. É mesmo um milagre Harry Styles caminhando com suas botinhas sobre os mares, e sua elevação tem tamanho impacto que gera ondas que mudam o estado do mar.

Gif de Harry Styles andando sobre a água.
Harry “Jesus Cristo” Styles.

É um clipe estranho. Vemos Harry estranhar voar, se divertir com isso, experimentar novas possibilidades, dar risada, fazer gracinha, ficar muito sério, lidar com a falta de gravidade, se permitir sentir o que está sentindo. Enquanto isso, essa profecia do sinal dos tempos tocando. São muitos sentimentos, todos exaltados de uma forma esquisita mas ainda assim exaltados. Podemos ver em seu rosto, nos cortes de cena, no espaço. Existe uma espécie de vulnerabilidade em tudo isso, o que na verdade conversa bastante com todo o discurso de Harry sobre seu álbum.

Desde a decisão de gravar o álbum na Jamaica, longe de tudo, até as músicas todas autorais, nas quais Harry afirma ser o mais honesto que ele já foi – tudo em Harry Styles, batizado pelas fãs de “the pink album”, é relacionado a olhar para dentro de si e deixar-se ser vulnerável.

E o que é o Romantismo se não um momento de olhar para dentro de si e prestar atenção em seus sentimentos? O Romantismo é sobre emoções, sobre tan taaan… vulnerabilidade.

Harry não anuncia somente o fim do mundo, mas a volta do Romantismo. Mas não o Romantismo do século XIX, cheio de ideais bucólicos e falta de noção do mundo. Esse é um Romantismo revisitado, criado pelos netos do Modernismo educados a partir das revoluções dos anos 60, os millennials. Estamos falando de uma retomada do eu muito mais consciente da que aconteceu em 1800. Uma retomada de um eu conectado ao mundo, que sabe que é impossível ignorar onde vivemos, que aprendeu com os pais que para ser realista precisa exigir o impossível.

Talvez “Sign of the Times” seja uma profecia não sobre o apocalipse, mas sobre a Era de Aquário. A era de uma geração que se eleva aos ares mais rarefeitos para poder criar novas perspectivas. Uma geração que tem referências demais, mas sabe usá-las com maestria. Uma geração que quer salvar o mundo mas que sabe que, para isso, é preciso antes salvar a si mesma. Uma geração que está se elevando cada vez mais e que pode chegar aos céus – mas é importante que se lembre de não querer o sol, como Ícaro quis. A elevação máxima está no nosso próprio mundo.

Céu avermelhado.

 

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