Quase Famosos: o lugar da mulher no rock’n’roll

Na primeira vez que assisti a Quase Famosos (Almost Famous, 2000 dir. Cameron Crowe), clássico dos amantes de música e pseudo-filme cult, eu era uma garota de doze anos que gostava de dizer coisas como “música é minha vida”, ainda não reconhecia a minha misoginia internalizada, e gostava de exercitar todos os tipos de superioridade conhecidos dentro de um fandom: me achava melhor do que fãs mais recentes (e/ou que tinham um conhecimento só menos aprofundado) daquilo que eu gosto e, é claro, acreditava ser bem melhor do que uma groupie. Que palavra horrível. Odiava quando confundiam o meu amor de com os atos vis de groupies.

Nenhuma surpresa, então, que naquele ponto da minha vida, eu tenha reagido ao filme com um sonoro “meh”. Não entendi porque todo mundo o venerava tanto, achei a Penny Lane extremamente irritante e tive tanto dó do William que achei quase insuportável passar por duas horas e meia daquela tortura. Entre 2011 e os tempos atuais, assisti ao filme mais algumas vezes e gostei mais a cada uma delas, mas foi só nas duas últimas vezes que eu realmente absorvi uma mensagem que, apesar de não realmente querer passar, ele acaba deixando evidente ao espectador devido a sua honestidade.

 

As mulheres têm um lugar muito específico na cultura do rock.

Não é uma ideia nova. É bem batida, na verdade, se você se importa minimamente com mulheres e/ou é uma dentro dessa cultura. O interessante de ver uma obra de ficção indiretamente escancarar isso, no entanto, é perceber a forma que ela te orienta a perceber aquele enredo. Em Quase Famosos, nosso herói é William Miller, o proto-jornalista musical de quinze anos que, devido ao jeitinho da groupie — perdão, band-aid — Penny Lane, consegue uma chance de acompanhar uma banda em ascensão, Stillwater, em sua tour pelos Estados Unidos. Apesar do papel de Penny ser igualmente importante — e ela realmente ser a parte mais icônica do enredo — vemos tudo que se passa pela perspectiva de William.

Como alguém que sonha em ser jornalista, ama sua subcategoria cultural, é uma fangirl assumida e, de quebra, ainda tem uma mãe um pouco controladora, eu sempre vi muito de mim no William. E isso era inclusive o que me fazia ter tanta raiva de Penny e Russell, cujo comportamento era frequentemente desdenhoso, desordenado e egoísta em relação ao garoto, que, de fato, tinha uma personalidade (e função) muito inadequada (mais séria do que “doce”, como Penny coloca) ao rock’n’roll. O caos e a subsequente bola de neve à qual William se expõe me davam tanta agonia que eu não conseguia prestar muita atenção em outras nuances da presença dele naquele ambiente.

Para começar: a Penny é ridiculamente legal com ele no começo. Por que ela deveria se importar em conseguir um passe para ele? Ao mesmo tempo, dentro da narrativa do filme, somos levados a acreditar que isso é o mínimo que ela poderia fazer por nosso herói. Ela não precisava ter feito isso, e a maior parte das groupies não teria feito, ainda mais pra um cara que elas acabaram de conhecer — não é prudente e não configura uma troca de ganhos iguais. Mas ela não apenas consegue o passe (ainda que tarde), como o leva para o hotel onde os rockstars estão hospedados, e, mais tarde, para a tour. O espectador não é levado a sentir enorme gratidão a Penny por nenhuma dessas coisas, mas a aceitá-las como algo básico e até como um indício de que ela deveria retribuir os sentimentos que William cria por ela.

Com o desenrolar do enredo e todas as decepções do jovem jornalista na estrada — combinada com sua constante passividade e gentileza com os rockstars e as band-aids — temos a impressão de que todos eles, em particular as meninas, lhe devem algo. E é aí que entra a complicada, ao menos aos olhos da narrativa, relação de poder no backstage do showbiz.

Penny Lane é uma estrela, tanto quanto qualquer um dos músicos que ela decide transformar em projetos. Se olharmos dessa forma, a abertura dela para estranhos faz até sentido: ela gosta de guiar William por esse mundo, de ser mais insider do que alguma outra pessoa pela primeira vez, de ter a palavra final e o conhecimento superior; posição geralmente ocupada pelos músicos e seus produtores. Como tantas mulheres já o fizeram e continuam fazendo, Penny consegue poder a partir da sua aparência e dos seus relacionamentos sexuais com homens — e, em plenos anos setenta, é difícil imaginar outra estratégia que daria tanto poder a uma high school dropout, especialmente dentro da subcultura do rock. Na verdade, nas poucas vezes que o filme mostra mulheres cujas vidas não são sexual e romanticamente centradas em rock stars, elas ou ocupam postos de pouco prestígio ou são completamente contra aquele estilo de vida.

Eu me via como William até perceber que eu nunca conseguiria ter feito o que ele fez. Não porque me falta coragem ou talento — acho que eu e ele estamos bem equiparados nesse aspecto, para bem ou mal — mas simplesmente porque eu sou uma mulher. A irmã dele, por exemplo, o introduziu a toda a música que ele conhece, mas acabou em um emprego de aeromoça. Claro, especular sobre as vontades secretas da personagem é um pouco demais, mas a tese da Irmã de Shakespeare, desenvolvida por Virginia Woolf em Um teto todo seu, vem à mente: nela, a autora idealiza Judith Shakespeare, que seria tão talentosa quanto o irmão, mas nunca teria tido as mesmas oportunidades educativas e sociais que ele e, assim, permaneceria nas sombras. É evidente que o amor de Anita Miller por aquela cultura era ao menos tão intenso quanto o de William, mas enquanto ser fangirl é um comportamento encorajado a ser descartado e que dificilmente rende uma carreira (e, no caso dela, até reprimido), ser um garoto apaixonado por música é um indicativo de um possível crítico.

E, voltando ao cenário hipotético no qual eu ocupo o lugar do enemy… Uma mulher nesse contexto não seria um depósito de segredos, nem teria o privilégio de ser uma wallflower. Nesse mundo, tudo que ela pode ser é uma parceira sexual e, com sorte, uma musa — e essa é a única forma de participar dele. E isso vale tanto para Penny e as band-aids como para a namorada de Russell: é possível que elas simplesmente tenham normalizado relações abusivas, mas também é provável que elas aguentem isso porque é a única forma de se aproximar de um círculo tão empolgante e restrito. Se elas não estão ali desse jeito, elas simplesmente não estão — para onde a Penny vai depois de quase cometer suicídio? Só existe espaço pra ela no rock and roll se ela estiver disposta a se machucar perpetuamente e de servir como adjuvante na trajetória de herói dos verdadeiros artistas.

E enquanto ela está praticamente desmaiada, já incapaz de formar frases completamente firmes ou coerentes e caindo nos braços de William, temos uma das cenas mais importantes e cortantes do filme: ela só consegue olhar para ele e, se referindo a Russell, perguntar “por que ele não me ama?”. Naquele momento, o trabalho emocional inerente à adoração, aos conselhos e o encorajamento de Penny Lane fica claro. Por mais que ela adorasse estar naquele mundo, tudo que ela fazia exigia um esforço tremendo — inclusive aquele de fazê-lo parecer natural — sem muito em troca além de algumas ilusões.

Como bem disse Amy Dunne em Garota Exemplar, “the cool girl is game. Até o momento que ela não consegue ser mais.

About Bárbara Reis 3 Articles
Bárbara é uma millennial estereotípica que acha que a internet é a melhor coisa que já aconteceu, é fascinada por novas linguagens e tem o péssimo hábito de acumular livros para ler e séries para assistir. Gosta de rock triste, acha difícil se comunicar com aqueles que não possuem seu repertório de memes e é uma daquelas paulistas que não suportam quem anda devagar. Nas horas vagas, cursa Jornalismo na ECA-USP.

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