Harry Styles: O sinal dos tempos

"Sign of the Times", Harry Styles

Antes do sinal dos tempos, antes de Harry Styles e de todas as músicas, havíamos nós.

Esqueça Deus, o verbo divino e a luz: tudo começa conosco. Antes mesmo do piano triste de balada britânica começar, somos nós que precedemos tudo. E nós sentimos. E choramos. Quem somos nós? Uma pergunta filosófica, sem dúvidas. Por que estamos chorando? Um mistério um pouco menor, talvez, mas ainda assim um mistério. Apesar disso, somos nós – quem quer que sejamos –, chorando – seja lá por que –, que começamos “Sign of the Times”. Só depois de nós e do nosso choro que entra o piano triste de balada britânica e a voz manhosa de Harry Styles nos dizendo algo que não sabemos se é um pedido ou um mandamento: Just stop your crying/ It’s the sign of the times.

Em um tom quase profético, Harry Styles faz sua estreia solo nos avisando sobre o final do mundo – foi o que contaram a ele. Não é uma música sobre amor, sexo ou festas. Harry começa sua carreira solo nos dizendo que o apocalipse se aproxima, enquanto nos acalma e tenta certificar – a nós e a ele próprio – de que tudo ficará bem.

“Sign of the Times” é, aparentemente, uma música sobre a aceitação de nosso destino fatídico. O mundo vai acabar, é o sinal dos tempos e tudo o que podemos fazer é parar de chorar e aceitar a realidade. Nós tivemos todas as chances do mundo, mas nunca aprendemos nossa lição e continuamos a repetir a história como Marx já nos avisava 165 anos atrás. Por que não aprendemos a lição? Harry Styles também não sabe responder, mas o ritmo de balada nos envolve e voltamos ao pedido ou mandamento para parar de chorar.

Sim, claro, é o sinal dos tempos. Está no título, está no começo de quatro estrofes, e essa afirmação, que vem quase que com um ¯\_(ツ)_/¯ ao lado, nos faz acreditar por um breve momento que precisamos aceitar o fim. É completamente baseada nessa necessidade de aceitação que a primeira estrofe da música se constrói – e quando achamos que Harry continuará em defesa de aceitar o fim, quando ele volta a proclamar que é esse o sinal dos tempos, Harry nos diz que precisamos fugir. A construção parece a mesma, são os mesmos dois primeiros versos, mas a virada da bateria e o surgimento da guitarra mudam tudo, inclusive o discurso.

A aceitação do fim do mundo antes genuína na primeira estrofe se fragmenta pouco a pouco até não restar mais nada além da negação do mundo que vivemos. A partir da dúvida do refrão de por que não aprendemos com o passado, o otimismo de que ficará tudo bem se enfraquece gradualmente, até que não sobra nada além de dúvida e negação do mundo em que vivemos e do futuro que nos espera.

Como acontece em nossas vidas, a dúvida é a semente para a mudança – da sonoridade da música, do discurso de Harry Styles, do nosso próprio destino. É implantada a ambiguidade entre aceitação e negação da realidade em que vivemos, e o que podemos fazer quanto a isso. A dúvida desconstrói o discurso pronto de que esse é o final, abrindo a possibilidade para um novo começo longe de toda violência que nunca conseguimos cessas, mas com a qual talvez consigamos romper se aprendermos com o passado e criarmos, em um outro lugar, um novo mundo.

Assim Harry inicia sua carreira solo. Anunciando a necessidade de uma nova história, um novo lugar e resgatando as sonoras baladas dos anos 70 para isso. Não é à toa.

A musicalidade de “Sign of the Times” não se justifica apenas pelo gosto de Harry pelo rock britânico de quase cinquenta anos atrás, mas também pelo paralelo entre a década de 70 e a atualidade.

Em um mundo em que o conservadorismo conquista cada vez mais espaço e poder ao redor do mundo, escolher voltar aos anos 70, e não aos 60, é significativo. Afinal, foram os anos 60 os dias de glória das lutas de esquerda, os 70 foram a rebarba cansada e teimosa desses tempos. Os jovens setentistas já haviam percebido que as lutas da geração anterior não levaram a tantas conquistas, a utopia se diluíra em meio a drogas e cassetetes, e o que sobrou foi essa falta de perspectiva de um futuro junto à eterna negação de um presente incondizente com os discursos da revolução.

Nós, filhas e filhos desses mesmos discursos, vemos o futuro a longo prazo que a geração de 60 construiu. E, apesar das grandes conquistas sociais e políticas, vemos o mundo ruindo economicamente, politicamente, socialmente, ambientalmente. Vemos o conservadorismo à tona e os movimentos de esquerda em um universo paralelo que não entende que já se passaram cinquenta anos das revoltas e revoluções que colocam em pedestais e muita, muita coisa mudou desde então. De certa forma, nos encontramos em um lugar extremamente próximo ao dos jovens dos anos 70 – nunca aprendemos, já estivemos aqui antes. E Harry cria esse paralelo a partir de sua escolha musical.

Muitos críticos e insiders, ao serem perguntados sobre o que viria a seguir, falaram de Bowie, Jagger, Queens. Mas nós sabemos que aqui só existe Harry Styles. Tendo em vista sua geração (nós), e como nos sentimos quanto a toda essa brutal realidade, ele cria a partir do início de sua carreira uma nova opção de mundo. Negando sua própria profecia, Harry começa um novo mundo, longe do que as outras gerações nos deixaram de herança.

Esqueça Deus, o verbo divino e a luz: tudo começa conosco e com Harry Styles.

 

Análise da letra da música "Sign of the Times", de Harry Styles. Em amarelo é o que seria aceitação, em azul é a dúvida, em rosa é a negação.
Análise da letra da música. Em amarelo é o que seria aceitação, em azul é a dúvida, em rosa é a negação.
About Clara Browne 3 Articles
Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Entusiasta do musical Jesus Cristo Superstar, arte moderna e astrologia. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual idealizou e co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela é escritora no mundo mágico da internet. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa, mas não se incomodaria em ser trouxa casada com Harry Styles.

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