Maria Antonieta 101: La vie en rose

Nascida Arquiduquesa da Áustria, Maria Antonieta foi a última Rainha da França antes da Revolução Francesa e povoa o imaginário popular como uma soberana inconsequente e gastona. Vivendo como uma celebridade tentando preencher o vazio de seus dias, aos treze anos já era lançadora de tendências da moda e dava seus primeiros passos como uma das personagens mais controversas da história francesa.

Em um quadro de 1762 pintado por sua irmã Maria Cristina retratando um café da manhã comum na família, a jovem Antonieta, aos sete anos, já se destaca por suas roupas: vestia uma enfeitada robe à la française. Usado em todas as ocasiões na França, o traje consistia em um corpete apertado de cintura baixa e uma cauda pregueada que pendia dos ombros. Nada nessa cena seria estranho, se não fosse a presença de uma boneca vestida igualmente com as mesmas roupas. Estas bonecas, chamadas de Pandoras, eram enviadas à futura delfina pelos modistas, vestidas com versões em tamanhos reduzidos das últimas modas parisienses a fim de preparar cuidadosamente a arquiduquesa para os próximos anos na corte francesa.

Com treze anos, Antonieta servia como um valioso objeto de troca entre duas nações e, para ser aceita, deveria se adequar ao estilo da refinada e exigente corte de Versalhes. O vestuário era a moeda de aceitação social e sobrevivência política, por isso uma precondição para a proposta de casamento foi a inspeção do guarda-roupa da arquiduquesa. Para isso foram gastas 400 mil libras (atualmente, uma libra valeria algo entre 20 e 30 dólares americanos) no enxoval do casamento, em uma época em que o guarda-roupa de um casal aristocrático valia entre 2 mil e 5 mil libras.

Algumas mudanças na aparência de Antonieta também foram necessárias para que a proposta matrimonial se concretizasse. O Choisel, Ministro de Relações Exteriores, notou que os dentes da menina eram levemente tortos e então um dentista foi convocado para realizar as cirurgias, que aconteceram sem anestesia e durante três meses. Seu cabelo era puxado para trás, preso com uma faixa de lã que lhe causava calvície e acentuava sua testa alta. O problema foi solucionado com uma mudança de penteado. Agora seus cachos eram domados em um penteado baixo, lhe salvando da calvície, da testa alta e a deixando dentro dos padrões de Versalhes. A mudança causou forte impressão nas senhoras de Viena e de toda Europa, que começaram a adotar o penteado ao estilo que foi chamado à la dauphine.

Seu casamento aconteceu na divisa de territórios austríacos e franceses, em um galpão improvisado e frio. Ao chegar, foi levada ao salão de remise, onde deveria renunciar a todos seus traços austríacos e se metamorfosear na herdeira do trono da França. Mesmo que estivesse usando peças de seu enxoval que fora encomendado da França, ela não foi dispensada do ritual de desnudamento. Todos seus pertences que pudessem servir de vínculo simbólico com a Casa de Habsburgo lhe foram retirados e enviados de volta a Viena, inclusive seu querido cachorrinho Mops. O Rei Luís XV, agora seu Rei-Avô, considerou suas “graças francesas” mais refinadas do que quaisquer outras que já vira.

O matrimônio demorou anos até ser consumado. A própria Maria Antonieta descrevia seu casamento como “Vênus na forja de Vulcano”, Vênus sendo a graciosa deusa do amor, e Vulcano, o deformado deus ferreiro, um dos casais mais improváveis da mitologia.

Todos a culpavam pelo desinteresse do delfim independente de seus esforços para seduzi-lo. Sentia que seu jovem marido não se sentia confortável no papel que deveria exercer e por isso tentou se aproximar de forma amigável. Com a permissão do rei, começou a ter aulas de montaria em um burro, com o objetivo de algum dia conseguir acompanhar as caçadas reais de que seu marido tanto gostava. Mas, com sua solidão, começou a cavalgar diariamente, havendo caça ou não. O gosto da liberdade proporcionado pelas cavalgadas ocasionou uma grande mudança no seu estilo. Em meio a boatos de sua incapacidade de conceber um herdeiro, Maria Antonieta adotou as apertadas calças de montaria masculinas, que lhe causaram acusações de esterilidade e homossexualidade. Logo foi proibida de cavalgar por sua mãe, Maria Tereza, que alegou a cavalgada como uma atividade perigosa e que faria mal para a geração de filhos que ela tinha o dever de gerar .

Maria Antonieta notou que não conseguiria facilmente a admiração de seu marido e que sua arma política mais forte, um filho homem, demoraria a acontecer. E foi então que ela começou a articular uma poderosa imagem que lhe ajudaria a resistir às tempestades políticas intensas que a cada dia mais a envolviam. Usava a moda como um instrumento político, como forma de aumentar sua autoridade em momentos em que parecia estar sob risco. Por meio de roupas, sapatos e penteados, se impôs na França, se colocando acima de qualquer mulher francesa. Usava a moda para mostrar sua força e poder aos inimigos, em uma época em que tentavam derrubá-la como esposa de Luís.

No dia da coroação de seu marido, Maria Antonieta estava vestida extravagantemente com uma criação de Rose Bertin, com fitas, bordados e pedras preciosas. Mas o que mais chamava atenção era seu penteado muito alto acima da cabeça e com uma fileira de penas brancas. Essa foi a primeira aparição do pouf, moldados ao redor de gaze; o penteado podia chegar até 1 metro de altura e era elaborado de acordo com acontecimentos políticos e descobrimentos científicos. Um exemplo disso foi o pouf usado pela Rainha em 1778, em homenagem à vitória contra os britânicos, exibindo um navio com as cores da França no alto de penteado.

Um mês após subir ao trono, Luís XVI deu à mulher o Petit Trianon, um pequeno palacete situado nos arredores de Versalhes. O lugar serviu para a quebra do protocolo e dos deveres da Rainha. Ao decorar sua nova casa, Antonieta seguiu a forte corrente chamada “o culto de vida simples”, que ocupava um grande lugar na vida literária e cortesã da França.

Concentrou-se em roupas menos extravagantes com tecidos relativamente modestos e com poucos enfeites. Trocaram as pedras preciosas por lantejoulas, babados gigantescos por flores de seda e fitas de gaze, chamados de “gaze reine”. Mas, por mais copiados que fossem seus novos vestidos e sua vida simples, ainda sofria fortes críticas e fazia aumentar a forte aversão do público pelo comportamento inadequado da Rainha aos padrões da corte, considerado um desafio aos costumes franceses.

Vivendo uma vida isolada no Petit Trianon, onde somente pessoas convidadas eram recebidas, diferente do palácio de Versalhes que era aberto ao público, Antonieta se via cada dia mais presa às críticas. Boatos de que suas damas de companhia eram também suas amantes e que era vista se agarrando com diversos homens nos jardins reais incitavam o ódio à Rainha, que nada mais podia fazer além de voltar a viver no padrões da Corte Parisiense.

Com a forte crise financeira pela qual a França passava devido às muitas guerras custosas nas últimas décadas e a uma aristocracia que se negava a dar dinheiro dos próprios bolsos para ajudar na crise, Maria Antonieta era apontada como a principal causadora do rombo nos cofres franceses. Embora não tenha sido a principal culpada, recebeu publicamente o apelido de Madame Déficit.

Com a explosão da Revolução Francesa, a família foi transferida para o Palácio das Tulherias. Ela viu então muitas pessoas da nobreza adotando as cores revolucionárias azul, branco e vermelho em apoio aos revolucionários, mas Antonieta continuou vestindo seus habituais vestidos ricamente adornados, deixando claro que não aceitava as ideias de liberdade, igualdade e fraternidade que os revolucionários propunham. Ao contrário de soberanas como Cleópatra ou Elizabeth I, Antonieta não se vestiu para intimidar; ela se produzia para deslumbrar.  Ironicamente, as roupas que usava no Petit Trianon e que foram alvo de críticas agora eram adotadas como vestuário oficial das mulheres com inclinações revolucionárias.

Presa no Palácio das Tulherias por um bom tempo, voltou a seus costumes simples adotados no Petit Trianon e parou de encomendar vestidos novos, substituindo-os por consertos nas roupas velhas. Após um tempo longe dos olhos do público, fez uma aparição usando um toucado adornado com as cores revolucionárias. Finalmente o povo Francês sentiu estar diante da Rainha que sempre esperavam: uma bondosa mãe da França, cujos trajes mostravam generosidade e virtudes patrióticas. Mas para Maria Antonieta, a introdução das cores revolucionárias ao seu vestuário não significa uma mudança de visão política, opinião que foi à público com a captura da família real enquanto tentavam fugir. A imagem que construíra, mais uma vez havia sido destruída.

A ira dos revolucionários parecia crescer mais a cada dia. Presos nas grossas paredes do Templo, seu marido foi deposto e sua cabeça cortada. Antonieta passou a ser conhecida como “viúva Capeto” e adotou o luto, vestindo-se inteiramente de preto. Envelheceu muito em poucos dias. Seu cabelos loiros ficaram escassos e brancos.

Como todas as acusações feitas durante sua vida, Antonieta foi julgada por causa de histórias criadas pelo povo a partir do ódio que sentiam pela estrangeira austríaca que nunca foram capazes de aceitar.  No dia de seu julgamento, fez uma das suas últimas declarações transmitidas pela moda: usou um vestido simples, branco na cor do emblema Bourbon e da flor de lis, símbolo da casa. A cor demonstrava sua pureza e a posicionava como um mártir da monarquia.

Sua morte causou transtorno à classe aristocrática. Depois que a guilhotina lhe deu um colar de sangue, as mulheres passaram a usar fitas vermelhas em torno do pescoço como lembrete de algo que poderiam sofrer. Até na sua morte a rainha afirmou um vínculo poderoso entre moda, morte e política.

About Gisele Campeol 1 Article
Gisa, 21 anos de pura indecisão. Futura jornalista. Mora no interior do Rio Grande do Sul, de onde vem também seu sotaque engraçadinho. É fã de literatura, de enologia e de todas coisas que parecem ter saído de sonhos.

1 Comment

  1. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA ESSE TEXTO <3
    Tenho que admitir que sou fã da Maria Antonieta por causa do filme da Sofia Coppola haha. Há tempos quero saber mais sobre a vida dela e esse texto foi a introdução que eu precisava para me motivar nas pesquisas. Quem jé estou atrás de biografias para ler? o/
    beijinhos <3

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