Dark Souls: Prepare-se para morrer

Dark Souls

No final de 2011, a empresa de games japonesa From Software publicou o sucessor espiritual de seu recente sucesso Demon’s Souls. Com o mesmo diretor e elementos quase idênticos ao jogo anterior, foi possível abordar suas experimentações de forma mais consistente dessa vez. O resultado, embora fraco em gráficos e distante das expectativas do mercado ocidental, foi um sucesso mundial que se tornou um clássico contemporâneo pela intensidade de seus desafios e, mais tarde, gerou duas sequências. Entra em cena Dark Souls.

O QUE É?

Basicamente, é um RPG de ação como qualquer outro. Você cria um personagem, desbrava um mundo medieval fantástico, coleta itens e equipamentos, adquire poderes cada vez maiores e enfrenta monstros dos mais variados tipos. Há três aspectos, no entanto, que o diferenciam do padrão e, embora sutis a princípio, ficam claros com um pouquinho de gameplay:

Uma releitura oriental de fantasia ocidental: Dark Souls traz elementos batidos: cavaleiros, magia, monstros e aventura. Porém, nesse caso, esses clichês ocidentais foram reinterpretados por gente do outro lado do mundo e voltaram com outro sabor. Você já viu essas coisas mil vezes, mas sempre sente que tem algo diferente. Assim, por incrível que pareça, Dark Souls tem um clima mais pra Silent Hill e A Viagem de Chihiro do que para Skyrim e O Senhor dos Anéis.

Um desafio denso, mas justo: O jogo pode até ser cruel, mas não é sacana. Ele sempre te dá a chance de compreender seus perigos antes de se arriscar neles, e todos são superáveis desde que você fique atento e paciente. Justo por isso, a evolução do jogador importa mais que a do personagem. Não é à toa que é possível terminar Dark Souls no nível 1.

Um quebra-cabeça narrativo: Suspense e catarse são reservados à jogabilidade. A história contada é simples e vaga, mas a graça está em desvendá-la através de detalhes arquitetônicos, descrições de itens, e diálogos com personagens. É como montar um quebra-cabeça: você faz pelo prazer de encaixar as peças, não pra ver a imagem no final.

Dark Souls
A própria capa japonesa o jogo já tem um clima diferentão.

PREPARE-SE PARA MORRER

A morte é o assunto principal quando se fala do jogo. Está até em seu slogan, “Prepare to die (“Prepare-se para morrer”). Não apenas é seu tema fundamental, mas também um elo que une a experiência do jogador, a do personagem, e a história do jogo.

Em resumo, no mundo de Dark Souls, as chamas que suportam a ordem do universo estão apagando e precisam que alguém as reacenda. Tamanha é essa desordem, que até a fronteira entre vida e morte está borrada, e os habitantes dessa terra vivem num meio termo amaldiçoado – os chamados mortos-vivos. O protagonista é o morto-vivo escolhido para reacender as chamas, que escapa de seu aprisionamento e parte à terra amaldiçoada de Lordran para cumprir seu destino, sem muita orientação ou preparo.

Graças à fraqueza das tais chamas, ninguém mais morre definitivamente nesse mundo. Quem perde a vida simplesmente renasce. Porém, consecutivas mortes deterioram sua sanidade até você perder a consciência por completo e se tornar um zumbi – ou, nos termos do jogo, um vazio. Não é por acaso que todo personagem que você encontra está louco, deprimido, ou os dois. Os que não estão, bom, é só questão de tempo.

O ambiente do jogo é totalmente inóspito. Os personagens com quem pode-se interagir são poucos (e é provável que você nem encontre todos eles da primeira vez) e o que eles dizem vai te deixar ainda mais apreensivo e confuso. A trilha sonora, fora nas batalhas com chefes, é quase inexistente, e o cenário, uma terra arrasada há tempos, é um mundo pós-apocalíptico habitado por horrores que não te darão uma segunda chance. Solidão e desespero são sensações constantes quando se viaja por Lordran, lembrando a você que a morte está a um mero passo em falso de distância.

E é tão fácil morrer em Dark Souls. Você é uma criatura tão frágil que nenhum equipamento bom te salvará se não tiver prudência, e precisa consumir a essência de outras criaturas – suas almas – para compensar pela fraqueza do próprio ser. No final das contas, é quase um jogo de terror. Você nunca se sente poderoso, apenas que escapou da morte dessa vez. E isso não acaba nunca, não importa o quão experiente você for.

Cabe ao jogador guiar o morto-vivo escolhido através de florestas, cavernas, masmorras e castelos cheios de monstros, dragões, demônios e deuses furiosos. Morte após morte, se vai muito longe. No final, o personagem pode até adquirir magias ou armas melhores, mas o que conta de verdade é o crescimento do jogador. O jogo pode até favorecer personagens mais fortes, mas nunca perdoará jogadores descuidados. Ele vai te matar até que você aprenda a dançar conforme sua música, mas chegar lá é incrivelmente satisfatório.

Dark Souls

ALÉM DA SUPERFÍCIE

Dark Souls é tão fácil de amar quanto de odiar. Embora a dificuldade não seja seu principal pilar, ela certamente é a primeira coisa que chama a atenção dos jogadores, fazendo com que muitos o deixem de lado rapidamente. Porém, o que prova sua competência é o fato de pessoas o amarem e o odiarem pelos mesmos motivos. Cada elemento dele funciona com a excelência que deveria e, se tem algo em que todos podem concordar, é que ele é excepcional no que faz.

Aos que nunca jogaram, mas se interessam por jogos assim, só posso recomendar.

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Moro de Oliveira é um pretenso escritor que passa metade do tempo tendo ideias absurdas e metade tornando-as realidade.

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