Como os spoilers ajudam Game of Thrones a ser mais lucrativa (ou: Por que as páginas oficiais soltam spoilers?)

Spoilers: há quem ame, há quem odeie e há quem simplesmente não ligue . Eu mesma sou do tipo que prefere não saber as coisas antecipadamente, principalmente em relação às séries das quais sou mais fã. Por um tempo, até proferi aos quatro ventos: “quem solta spoiler não tem caráter!”. Eu realmente acreditava nas palavras que dizia, mas hoje já avancei algumas casinhas na vida e consigo compreender quem não se aguenta e posta seus comentários “ao vivo” nas redes sociais. Afinal de contas, é bom lembrar que o Facebook e, principalmente, o Twitter exerce hoje um papel de segunda tela- a gente quer conversar sobre os programas enquanto eles estão ocorrendo ao vivo com nossos coleguinhas; a gente quer morrer de rir com os memes que surgem instantaneamente e que não apareceriam em tanto volume dois dias depois. Somos a sociedade do always on, afinal de contas!

Em defesa dos que gostam de spoilers, uma pesquisa reveladora da University of California mostrou que quando você já sabe o que vai acontecer em uma história antes de ela se desenrolar, a tendência é que você a desfrute ainda mais. Segundo a pesquisa, ao desviar o foco de atenção na narrativa, o espectador consegue observar as escolhas artísticas que o conduzem ao grand finale – como acontece quando viajamos por uma estrada conhecida e, sabendo onde ficam as curvas, podemos apreciar a paisagem. Isso explica por que é tão gostoso consumir uma obra que a gente ama pela segunda ou terceira vez, com um olhar totalmente diferente. O pesquisador até sugere que os spoilers deveriam ser chamados, na verdade, de enhancers (algo como “engrandecedores” em português).

Apesar disso, a verdade é que muita gente prefere ter a emoção de descobrir um plot twist pela primeira e única vez. E se essas pessoas não conseguem acompanhar a série durante sua primeira transmissão, melhor que elas deixem de seguir os canais oficiais da série nas redes sociais: já se tornou prática comum os estúdios divulgarem chamadas, imagens ou comentários relacionados ao episódio que acaba de ir ao ar, desconsiderando toda uma legião de fãs que provavelmente não gostaria de ver aquele tipo de conteúdo tão cedo. Se isso pode prejudicar a imagem da página com os seus fãs mais radicais com relação à etiqueta de spoilers (e, geralmente, quanto maior o envolvimento emocional, maior a chateação com o spoiler), por que as emissoras continuam fazendo isso? A resposta é que, como absolutamente tudo na TV, decisões como essa são pautadas com base em uma única coisa: dinheiro. E uma rápida análise da série Game of Thrones pode dar algumas pistas de que esta é uma hipótese válida.

Red_wedding_s3_ep9
Cena do emblemático The Rains of Castamere, da terceira temporada.

Comecemos dizendo que Game of Thrones foi uma das grandes responsáveis por suscitar novas nuances ao debate do spoiler. Para começar, a série, ainda que com várias adaptações, é baseada em um livro que já descrevia, por exemplo, a morte de um dos principais heróis logo no começo da trama, a história de um casamento sangrento e muitas outras reviravoltas. Os fãs do livro já esperavam muitos dos acontecimentos e alguns deles ~faziam o favor~ de postar spoilers para os fãs da série, como uma forma de demonstrar autoridade em all things GoT. Esse tipo de spoiler se enquadra no tipo babaca e possivelmente passível de processo por danos morais, o que fez com que, por muito tempo, os spoilers da série estivessem associados a uma prática negativa. Somente na última temporada é que vimos uma Westeros inédita para ambos os públicos.

Outro fator particular da relação da série com os spoilers foi a mudança no perfil do público. Desde 2014, a produção teve um grande aumento na audiência, alcançando novos espectadores além daqueles que já amavam a série e iriam defendê-la. Falamos agora de famílias inteiras acompanhando a produção. Pessoas que, muitas vezes, não estão por dentro da etiqueta de spoilers do fandom e que cresceram lendo o resumo semanal das novelas nas revistas de TV. Pessoas que estão acostumadas a utilizar elementos culturais como forma de iniciar e manter uma conversa. Que só aparecem no Facebook durante o jogo do fim de semana, que usam o Twitter pra acompanhar a hashtag de um programa ao vivo. Ou seja, vários tipos de espectadores agora circulam pelo fandom de Game of Thrones, incluindo uma grande parte que adotou as redes como segunda tela e não vê problema nenhum nisso. O site da revista Time chegou a publicar um artigo que elege Game of Thrones como a última “TV consensual“.

ratingsgot

got 2
Números da audiência da primeira transmissão de cada capítulo de Game of Thrones por canais oficiais da HBO. Fonte: The Nielsen Company. Gráfico e tabela retirados da Wikipedia.

Bem, você lembra que eu comentei que a TV é a arte movida ao lucro? Acontece que a cultura de spoilers acaba agindo como forma de monetizar os seus dois tipos de público.O fandom que ama fazer uso da segunda tela eficará cada vez mais engajado emocionalmente com aquele produto cultural ao conversar sobre ele em tempo real com seus amigos nas redes sociais (no capítulo em que comenta o caso de American Idol em A Cultura da Convergência, Henry Jenkins fala sobre a formação de consenso que se dá quando conversamos sobre um programa enquanto o assistimos). Enquanto isso, a parcela do fandom que simplesmente odeia spoilers vai preferir pagar para assistir à primeira transmissão ao invés de se isolar socialmente ou perder horas de sono no começo da semana. Em muitos círculos sociais, uma season finale de Game of Thrones é tão comentada no universo extra-web como uma final de campeonato.

Estimular a conversa via redes sociais é mais uma das estratégias das grandes emissoras para aumentar o lucro das séries, tornando-as cada vez mais globais e escalando seus investimentos (lembremos que GoT é a produção mais cara da história da TV, com orçamento de 100 milhões de dólares na última temporada). Absolutamente tudo em Game of Thrones trabalha em prol dessa estratégia: desde a cultura de spoilers e cliffhangers (nunca se sabe o que pode acontecer, e isso é maravilhoso), até o horário em que ela é transmitida (último horário do domingo, fazendo com que os fãs que recorrem à pirataria tenham que perder horas de sono no começo da semana para não ter isolamento social) até à decisão de exibir a primeira transmissão da série de forma simultânea em escala global, seja pela TV a cabo, seja por meio do serviço de streaming HBO Now. Estamos falando de um fenômeno cultural que não pode ser assistido legalmente sem que o fã desembolse o mínimo de dinheiro que seja.

Última cena do episódio final da quinta temporada, que gerou muita insatisfação nas redes sociais devido a spoilers.
Última cena do episódio final da quinta temporada, que gerou muita insatisfação nas redes sociais devido a spoilers.

Ao invés de tentar combater a pirataria, que tem batido recordes desde que a série foi lançada, a HBO tomou a sábia decisão de investir na expansão de seu público para pessoas que não estão acostumadas a este tipo de consumo e que preferem a comodidade e facilidade de pagar pelo que assistem. É a regra de ouro do mercado de bens simbólicos da nova mídia: não ganhe pela escassez, mas pela abundância. Prova disso é que, mesmo com o vazamento dos quatro primeiros episódios da quinta temporada, a audiência do programa continuou crescendo, muito devido ao surgimento do serviço de streaming da HBO Now naquele ano.

Muito além de um comportamento irritante, os spoilers passaram a ser utilizados como uma estratégia para manter o engajamento das audiências de TV. Assim, acabamos com narrativas repletas de cliffhangers e com bingewatching como forma predileta de assistir aos lançamentos da Netflix, mesmo quando os novos episódios são lançados às 6h de uma sexta-feira. Vivemos e nos esbaldamos na cultura do presente contínuo e adoramos consumir coletivamente — e agora, algumas emissoras aprenderam como lucrar em cima disso.

About Julia Dantas 2 Articles
Jornalista, professora e mestranda em Mídia e Tecnologia. Parece que levo uma vida séria, mas ela basicamente se resume a pular de obsessão em obsessão. Por aqui, falo sobre duas das coisas que mais amo: mídia & séries.

Be the first to comment

Leave a Reply

Seu e-mail não será publicado.


*