Carta das Editoras

Ilustração: Clara Browne.

Nós nos conhecemos em um dos muitos sites azuis da internet dos anos 2010. O de nossa escolha, ideal para círculos fechados e informações multimídia, adotava um tom escuro levemente apagado e, ao longo de sua existência, ganhou a fama de reduto de pessoas estranhas em geral.

Não é estranho ou particularmente especial pensar que nos conhecemos por interesses comuns — afinal, isso é quase uma fórmula universal. A questão é que nós já nos conhecemos em um contexto marcado por uma honestidade, abertura e vontade de conectar muito intensas: o fandom (em sua variação virtual, ainda por cima.) A atividade favorita de fãs é percorrer todo o conteúdo disponível sobre um pedaço de cultura e consumi-lo como uma chama, analisando seus aspectos minuciosamente e quase sempre devolvendo algo novo, seja ele fanfic, fanart ou uma metanálise. A questão é: não é fácil encontrar alguém disposto a te acompanhar nesse estilo de vida, porque isso requer tanto interesses em comum como uma mente naturalmente disposta a processar cultura dessa forma.

A vontade de conectar é inerente a atividade de fã: queremos relacionar o que amamos a tudo aquilo ao nosso redor (na verdade, muitas vezes fazemos isso inconscientemente), queremos ligar coisa favorita x a coisa favorita y e, acima de tudo, queremos alguém com quem nos conectar e estabelecer uma rede capaz de suportar e aprimorar essas atividades. In short, alguém capaz de entender aquela referência à frase do décimo quinto episódio da sua série favorita, a razão de jaquetas jeans com manchas de molho sempre te remeterem a um incidente que aconteceu com a banda em 2007, e reagir com gritos e empolgação aos mesmos lançamentos que você.

Eu e Sofia nos unimos inicialmente por meio do amor pela música, em particular bandas como Arctic Monkeys, The Kills e The Strokes. Como mascote oficial desse círculo (no início, eu era uma menina de onze anos em meio a pessoas de no mínimo dezessete), minha amizade com a editora geral desse site sempre foi baseada num reconhecimento mútuo do potencial de super empolgação em relação a qualquer pedaço de cultura pop, mas também contou com uma aura constante de irmã mais nova (o que eu realmente sou) / irmã mais velha (o que Sofia também é.) Pela abertura fácil e imensa que a relação entre fãs cria com a naturalidade de idosos que puxam papo com qualquer pessoa no ônibus, ela me introduziu a várias ideias que mudaram a minha visão — o feminismo, por exemplo — e até mesmo ao conceito da problematização de filmes e séries.

O engraçado é que o fanatismo é sempre associado a uma visão afunilada, uma alienação em relação ao resto do mundo devido a sua fixação em uma, duas, três coisas específicas. Mas ser fã é usar disso, do amor excepcional que elas provocam, para ir além. É a disposição constante de absorver qualquer coisa que possa ser relacionada a algum — ou a todos, em um dia de sorte — dos universos que você ama. Gostar de um álbum feito em determinado país torna o conhecimento sobre ele indispensável para entender a fundo (o básico para um fã) seu significado e lugar no mundo. Seguimos a linha de inspirações daqueles que nos inspiram até que elas se dissolvam em outros caminhos, de outros artistas que já chegamos dispostos a amar. E a lógica passa para amizades fácil, fácil: gostar das mesmas coisas — e de jeitos parecidos — que a Sofia me fez querer saber mais sobre ela instantaneamente, e entender o que formou e enriqueceu a vida dela, com a suspeita de que, assim como as inspirações daqueles que me inspiram, elas fariam algo por mim também. Nessas, eu ganhei uma edição de I’m with the band, da Pamela des Barres, como presente de aniversário de 16 anos de uma pessoa que, até então, eu sequer havia visto pessoalmente.

É breguíssimo pensar no nascimento do Headcanons como o fechamento de algum tipo de ciclo que começou nas replies do Tumblr, passou por fanfics AU sobre épocas feudais e resultou em um dueto de Can’t Stand Me Now num karaokê da Liberdade (e muitas coisas mais legais do que isso). Mas é inegável que a vontade de celebrar essa força aglutinadora, transformadora e simplesmente alegre que um grupo de fãs possui — e todas as coisas fantásticas que isso pode criar — vem de um aglomerado de experiências, dentre as quais está a nossa.  

About Bárbara Reis 3 Articles
Bárbara é uma millennial estereotípica que acha que a internet é a melhor coisa que já aconteceu, é fascinada por novas linguagens e tem o péssimo hábito de acumular livros para ler e séries para assistir. Gosta de rock triste, acha difícil se comunicar com aqueles que não possuem seu repertório de memes e é uma daquelas paulistas que não suportam quem anda devagar. Nas horas vagas, cursa Jornalismo na ECA-USP.

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